PADRE OSVALDO CHAVES: Sabia tudo, sabia muito e sabia bem, como ninguém! Da Série: Pensadores que sonharam com um Brasil melhor (X)

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Todas as vezes que a gente fala em Pe. Austregésilo ou em D. Francisco aparecem leitores ou ouvintes, ligando-o ao Padre Osvaldo Chaves, outra das maiores referencias do clero sobralense, mutuamente, comparadas. Não escondo a minha admiração pelo meu ex-reitor e bispo, como quero ressaltar o meu eterno respeito pelo meu professor competente, sábio e possuidor de uma vasta cultura como o era o Padre Osvaldo.

Eu o conheci e o tive como professor, à mesma época em que fui aluno  do Pe. Austregésilo. Aliás, ser competente, sábio e culto eram os predicados exigidos por Dom José Tupinambá, para alguém ser formador no Seminário S. José de Sobral. Quem não se lembra do Pe. José Gerardo Ferreira Gomes, o nosso eterno “Mestre”; Pe. Marconi Montezuma, Pe. Luizito, Padres Albany e Sadoc, chegados de Roma à mesma época, só para lembrar alguns. O Padre Osvaldo chegara junto com o Pe. Austregésilo no início de 1952.

Sacerdote, Professor, Poeta PADRE OSVALDO CHAVES, de Granja, Ce.

Nasceu no Sítio Angelim, distrito de Samambaia – Município de Granja – CE aos 21 de Outubro de 1923. Logo criancinha, foi acometido de poliomielite, com atrofia da perna esquerda. Mas isto não o impediu de “sonhar alto”. Com 16 anos ingressou no Ginásio Lívio Barreto, nome de um grande poeta, filho da terra, que o despertou no gosto pela poesia. Em 1940 ingressa no Seminário São José de Sobral, dedicando-se aos estudos e à leitura de prosadores e de poetas clássicos. Cassiano Ricardo foi o poeta que mais o influenciou e o estimulou em sua vocação poética.

            Os estudos de filosofia e teologia no Seminário da Prainha em Fortaleza lhe permitiram dar voos mais altos, até que no final de 1951 estava preparado para a ordenação sacerdotal, na Catedral da Sé, em Sobral, pelas mãos de D. José Tupinambá. Com 28 anos estava o Padre Osvaldo Carneiro Chaves pronto para iniciar suas atividades, lecionando no Seminário onde estudara.

            Sabia tudo, sabia muito e sabia bem, como ninguém. Sabia pra ensinar: português, francês, latim, inglês, grego, literatura luso-brasileira, pedagogia e música. Dependendo da necessidade de cada lugar, por onde passava ia ensinando. Sabia as línguas e as falava no sotaque dos nativos. Aperfeiçoava-se nisso, recorrendo aos linguafones da época, aos métodos de “Assimil”, tão em voga para qualquer língua, com textos e gravações para serem “assimilados”. Como ele era muito organizado, repartia bem o seu tempo e o usava, racionalmente, para que não se perdesse em nada.

            Quando a gente ia assistir ao Sermão do Encontro, na sexta feira antes de iniciar a Semana Santa, que um daqueles “monstros sagrados” da equipe do Seminário era o pregador, quando o víamos subindo ao púlpito e era o Pe. Osvaldo, todos nos sentíamos logo, iluminados, pela áurea que ele espargia. Era tanta sabedoria, tanta eloquência, tanto conteúdo catequético que nem nos cansávamos em ouvi-lo.

            Uma vez ele nos contou em sala de aula que, num desses sermões calorosos e tão formativos, em uma tarde de muito calor em Sobral, ele notou que dois homens se entreolhavam e confirmavam com a cabeça e com gestos, o que lhes ia chamando a atenção. O grande pregador ficou entusiasmado com a cena e apurou-se em suas figuras de linguagem, circunlóquios e outros recursos de oratória, pensando: “pode até a multidão não está ligada no que estou pregando, mas, ao menos a estes dois, eu vou convencer”. E à medida que o calor foi aumentando e a força da retórica foi transparecendo, o suor foi-lhe ensopando a testa e o pescoço que o lenço não dava conta de enxugar.

            O grande pregador se foi conduzindo para o final de seu grande sermão e o encerrou com a palavra “amém” e com o sinal do cristão, invocando a SS Trindade. Ao olhar pros dois homens tão centrados nas suas palavras, eles se entreolharam e um disse pro outro: “isto é que é suar”! Coisas do Pe. Osvaldo!

            Quer ver mais uma? Ao dar-nos uma aula no 1º horário da tarde, um aluno que estava na 1ª fila, à sua frente, bocejou ruidosa e deseducadamente, escancarando a boca; ao que ele reagiu de imediato: “meu filho, eu vi o fundo da sua cueca”! Todos rimos, é claro, diante desse seu lado espirituoso.

            Mas, o que os mais velhos iam passando para os novatos, está bem descrito pelo novo aluno, pré-adolescente, Juarez Leitão, entre as 65 declarações de amor que lembraram os 90 anos do Seminário de Sobral. O que ele narra, tão belamente, é mais ou menos o que nós outros não saberíamos repassar como o fez o colega betanista.

            “O 1º dia de aula foi um amplo festim de novidades. Conheci os novos colegas e vários professores… Foi, então, que ouvi sobre o professor de português. Os veteranos tremiam ao falar dele. Diziam que ninguém o igualava em severidade e exigência de absoluta dedicação à sua matéria. Era um durão”… Esta era a maneira que os outros pensavam: os menos estudiosos ou mais superficiais. Era a resposta que os Apóstolos davam à indagação de Jesus: “o que dizem os homens que eu sou”? Mas Jesus acrescentara: “e vós quem dizeis que eu sou”? L.c. 9, 18-20. Aí, a resposta mudou de feição: “tu és o Filho de Deus vivo”. “Tu és o Emanuel”. “Tu és aquele que deveria vir”. “Tu és o Deus conosco”. Foi a resposta de quem o amava. De quem o conhecia.

            O Juarez Leitão estava cheio das informações dos outros. Conheceu o Pe. Osvaldo e se deixou conhecer por ele. Nunca esqueceu a sua auto- apresentação na 1ª aula: “eu sou o Pe. Osvaldo Carneiro Chaves, professor de vernáculo. Nosso objetivo principal nesta sala e na vida é ser feliz. Todos nós humanos temos um compromisso com a felicidade. Deus nos quer ver felizes. Felizes por nossos sentimentos, por nossa condição humana, por nossa fé, por nossa vocação. Este é o nosso local de trabalho. Estudar é um trabalho. Somos operários, vocês e eu, laborando na procura do conhecimento”.

            Não seria esta a melhor “informação” a ser repassada pelos veteranos? Era assim que o Pe. Osvaldo sempre se apresentava. Todos o entendíamos muito bem. O Juarez entendeu e se apaixonou. Colocou-o na sua formação literária e foi incentivado por ele, para escrever. Chegou à Academia Cearense de Letras e dedica a sua Cadeira de Imortal a seu Mestre que foi o Pe. Osvaldo e não ao assustado aluno dele dos tempos da Betânia. Não é sem razão que ele o proclama, recita nos encontros de Betanistas, nos saraus literários como o Farol de Alexandria.

            Neste 29 de novembro faz 20 anos que cheguei de volta ao meu Ceará, depois de 40 anos em Pernambuco. Pensava em ficar apenas um ano, mas fiquei até agora, sempre ligado com os M.C.S.: na UVA, na Diocese e agora, no site do Leunam, em professorcomprazer.com  

Vi o Pe. Osvaldo, no alto dos seus 80 anos – como eu estou agora – celebrando na Capela do Abrigo, em Sobral, dando verdadeiras aulas de exegese, a partir das sugestões oferecidas pelas leituras bíblicas. Havia um grupo fiel de participantes, ex-alunos e muitos admiradores do Pe. Osvaldo e da sua sabedoria. Foi sábio, pregador, dando-nos uma mensagem de fé e esperança até o fim, ensinando-nos o que sempre ensinou e já me referi: a sermos felizes. É isto que Deus quer de nós

Autor do texto: MONS. ASSIS ROCHA, Mestre e Doutor em Comunicação Social, Escritor – de Bela Cruz – Ce.

1 comentário em “PADRE OSVALDO CHAVES: Sabia tudo, sabia muito e sabia bem, como ninguém! Da Série: Pensadores que sonharam com um Brasil melhor (X)”

  1. Falar e ouvir falar de Pe. Osvaldo, é e será sempre muito prazeroso. Parece que estou o vendo em minha frente sempre trazendo algo de novo. Assim como mons. Assis também fui seu aluno e isto me traz muitas alegrias e a busca da felicidade.

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