Meu Mundo Literatura, por Aninha Martins

Aninha Martins

Gosto do meu mundo, de verdades criadas, pois ONDE HÁ VERDADE, HÁ POESIA.

E o que é a verdade?

Se tudo é tão relativo… Então, me deixo cair no abismo, tal como ALICE, no meu PAÍS DAS MARAVILHAS e, mergulho nas palavras, como em uma piscina de bolinhas, me permitindo sentir, como se eu tivesse em UMA MÁQUINA DE INVENTAR INSTANTES, instantes de sonhos e realidades permitidas.

Converso com DRUMOND e proseio no ALPENDRE, com RACHEL, balançando na rede onde D. GUIDINHA costuma descansar, para, daqui a pouco, fazer uma caminhada ao lado de GUIMARÃES, pelas Veredas do Grande Sertão e encontrar GRACILIANO e, os três, observar as VIDAS SECAS, periodicamente, pois quando a chuva cair, tudo renascerá…

E, no SILÊNCIO DO ENTARDECER, ouço uma voz que diz: DEIXE PARA MAIS TARDE para tentar entender! Vivo o momento, ao som de TOM, até sentir OS RESPINGOS DA MADRUGADA, quando canta O FAZEDOR DE AMANHECER, num CONCERTO A CÉU ABERTO, alertando que o dia está a caminho, e molho os pés NO ORVALHO DAS MANHÃS.

E assim, como o PEQUENO PRÍNCIPE, rego a flor mais importante, aquela pela qual me responsabilizei, planto tantas outras e faço doces no tacho deixado por CORA, para enfeitar e adoçar as horas, até chegar o momento em que, de mãos dadas com BANDEIRA, seguiremos rumo à PASÁRGADA, e sentaremos ao lado do PRINCIPEZINHO, para assistirmos, quantas vezes quisermos, o espetáculo do fim de tarde e logo após, contemplar A LUA, DEPOIS DO SOL,  perceber COMO A NOITE É LONGA, ao lado de PESSOA e seu tantos outros, me deixar OUVIR ESTRELAS contidas na VIA LÁCTEA com BILAC, como VAGA MÚSICA entoada por CECÍLIA.

Mas o meu SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO chega ao fim… Preciso voltar à minha outra realidade, convicta de que existe muito MAIS DE MIM escondido em mim mesma, pois o que OS OLHOS NÃO VEEM, O CORAÇÃO SENTE. E, como fez com sua TRAPEZISTA DO CIRCO, BIVAR me chama, me trazendo de volta da CIDADE DE PAPEL.

ANINHA MARTINS, de IPU – Escritora, Professora e Poetisa

O RESTO É SECUNDÁRIO, PERECÍVEL! por Aninha Martins.

Aninha Martins

Sou um homem de negócios, vivo em meio aos números, cifrões, máquinas e aparatos tecnológicos.

Isso mostra a frieza do contexto em que sou inserido, o que contribui para ter um pensamento mais técnico, embora, sinta, tenha fortes emoções, mas quase todas voltadas às preocupações com o que não está indo bem ou o que pode surgir para impedir meu avanço capitalista.

Nesse momento, não poderia ser diferente, mais do que nunca, me preocupo com o meu futuro financeiro e, consequentemente, acabo deixando de lado a minha preocupação com o meu bem maior, a vida.

Percebi isso, ao pensar que todo meu patrimônio só tem sentido se eu estiver bem, com saúde. Percebi que tudo que conquistei é importante, porém, passageiro, a vida terrena, tem prazo.

Então, me convenço de que o mais relevante é aproveitar, da melhor maneira possível, o que realmente tem valor: o calor humano, a natureza, as batidas do coração e o pulsar da vida. O resto, é secundário, perecível.

ANINHA MARTINS, de Ipu: Professora, Escritora e Poetisa.

OBS: Texto inspirado em um amigo empresário, preocupado sobretudo, com o futuro de sua empresa.

Do JORNAL O POVO: 10 municípios do Ceará estão com aulas remotas; na rede privada, 7 em cada 10 escolas

Segundo o Sinepe-CE, 25% das escolas particulares optaram por férias antecipadas no último mês para se adaptar ao ensino emergencial remoto

Por Ítalo Cosme, do Jornal O POVO, de 20/03/2020

Dos 184 municípios cearenses, cerca de 110 estão com aulas remotas nas escolas públicas do ensino fundamental (1º ao 9º ano). Em relação às escolas privadas, considerando todas as etapas do ensino, sete a cada dez ofertam conteúdo desta forma. O restante optou por antecipar as férias escolares, mas retornam em maio próximo. Os levantamentos são da seccional cearense da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Ceará (Sinepe), respectivamente.

Conforme a Undime, órgão de assessoramento e orientação aos dirigentes municipais de educação, a pesquisa recebeu respostas de 144 municípios. Desses, 80 aplicam conteúdo que deve ser aproveitado na carga horária mínima de 800 horas exigidas pelo Ministério da Educação (MEC). Outros 30 usam atividades remotas, mas ainda há incertezas se o material alcançará às exigências para validação. No restante, 34, não há nada sendo aplicado.

Tendo em vista esses dois últimos conjuntos de cidades, a Undime-CE montou um grupo de trabalho, com seis dirigentes educacionais, para orientar como se preparar e retornar às escolas. Conforme a presidente do órgão e secretária de educação do município de Crateús, Luiza Aurélia Costa, durante a semana de aula, os professores devem preparar o alunado para, na sexta-feira, encaminhar atividades a serem feitas em casa. A cada exercício serão atribuídos minutos de estudo.

“No final, o tempo deve compor a carga horária exigida. Assim, os professores terão condições de aferir se o estudante conseguiu apreender as competências propostas”, considera. O material deve ser disponibilizado às cidades. As orientações são feitas aos técnicos em educação das localidades. As recomendações são para o ensino fundamental. Uma coletânea de atividades está sendo feita para o ensino fundamental.

No entanto, a líder educacional confessa não conseguir mensurar a qualidade do ensino ofertado nos municípios que adotaram a educação remota. “O que fizemos foi para saber se há a oferta, qual o percentual atingia, como o município está realizando e se melhorou as condições de conectividade, cada município tem o poder discricionário de optar pela atividade.” 

Luiza destaca que algumas redes de ensino do Ceará, como a de Fortaleza, São Gonçalo do Amarante e Eusébio, começaram a investir e apresentam condições favoráveis para a oferta dessa modalidade.

“Os municípios não investem em softwares ou aplicativos, por conta disso não há capacitação dos professores para isso. Há limitação desses profissionais no uso de mídias. Não é algo universal, mas há um alto percentual assim. A baixa escolaridade dos pais influencia consideravelmente na orientação domiciliar das atividades”, comenta ainda sobre os fatores que dificultam aulas remotas.

Por outro lado, o cenário se desenha de forma diferente na rede de ensino privado, mas ainda assim é desafiador, segundo o professor Airton Oliveira, presidente do Sinepe-CE. O representante destaca que 25% das escolas particulares optaram por férias antecipadas no último mês para reforçar os sistemas e adaptar para o ensino emergencial remoto. Enquanto o restante, intensificou as atividades domiciliares e ganhou um novo ator no processo de aprendizagem: os pais. Há 4,9 mil unidades particulares no Estado.

“A escola tem de ser ágil. Não podemos ficar de braços cruzados se essa pandemia chegar a agosto. É um novo modelo. É um momento de resolução imediata para salvar o ano letivo na educação básica e o semestre, no ensino superior”, considera. Oliveira frisa ainda que muitas instituições se endividam para adaptar e receber a demanda dos estudantes em um ambiente virtual.

“É uma modalidade que vai permanecer. Esse período tem atraído o interesse dos alunos e despertado famílias a se envolverem mais. Talvez, apareça uma ou outra resistência porque querem delegar a obrigação da educação apenas à escola. Mas a educação domiciliar é uma riqueza porque os pais estão participando, convivendo e nós estamos em permanente contato.”

Para ele, há receio por parte do Ministério Público do Ceará se o conteúdo está sendo cumprido. Ele afirma que as escolas estão repassando de forma correta o material. “Na volta, vamos fazer a avaliação. Nós iremos fazer reforço daquilo que pode não ter sido compreendido, utilizar o mês de julho, dezembro e janeiro para complementar o ano letivo”, garante.

Municípios vivem incertezas no alcance de conteúdo durante isolamento

A rede de ensino de 64 municípios, monitorados pela seccional cearense da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), enfrenta problemas para chegar aos alunos durante a suspensão das aulas presenciais. Em Banabuiú, distante 216,6 quilômetros de Fortaleza, foi adotada a estratégia de aulas emergências remotas. No entanto, o formato não alcança todos os estudantes. Enquanto em Catunda, a 266,9 km da capital cearense, o método deve ser adotado apenas após a retomada do calendário escolar. 

Dirigente educacional do município de Banabuiú, Imaculada Silveira desenha um cenário precário quando se trata de ambientes virtuais. Para a gestora, em tempos de situações extraordinárias, há necessidade de se entender o novo cenário. “Para o público maior, está interessante. As coisas estão fluindo. Mesmo eu não conseguindo atingir percentual interessante. Nós estamos aprendendo no dia a dia”, afirma.

Segundo Silveira, a experiência bem sucedidas de outras localidade serve como parâmetro para o município, que tem na rede 3,2 mil estudantes. A secretária afirma que o principal recurso utilizado é o WhatsApp. “A gente está tentando levar as orientações pedagógicas por meio das próprias pessoas que moram na região.”    

Apesar disso, Imaculada destaca que a equipe técnica trabalha para o voltar já com calendário adaptado. “Tudo o que tínhamos feito em outubro, novembro e dezembro, estamos refazendo para que a criança tenha o que lhe é de direito: educação de qualidade”, projeta.

Enquanto isso, em Catunda, o responsável pela educação do município, Rondinele de Oliveira,  utiliza do rádio para se comunicar com o alunado das 12 unidades de ensino. “Estamos aguardando o retorno das aulas para fazer as atividades remotas dos alunos.” Ele destaca que, por enquanto, a plataforma sonora é usada apenas para informação às comunidades. Um programa semanal é veiculado no rádio. 

“Este é o momento para tranquilizar as famílias, para entender que não se trata de férias, mas de isolamento social”. Segundo ele, dicas em vídeos são divulgadas nas redes sociais do município para orientar pais em como lidar com a criança em casa. Para algumas séries, os professores deixam atividades em casa ou enviam por WhatsApp.

“Vai chegar o momento de montar um programa de rádio por disciplina.  E vamos fazer no mês de maio. Se isso se estender mais, vamos sentar e elaborar os programas.  O aluno vai perder muito. Quando se trata da educação infantil e anos iniciais, a presença do professor, o espaço escolar é essencial para que o aprendizado aconteça. Sem contar que parte das famílias não têm instrução”, considera.

Aquiraz e Jijoca de Jericoacoara recebem apoio da Fundação Lemann

Os municípios de Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza, e Jijoca de Jericoacoara, distante 283,4 quilômetros da capital cearense, foram selecionadas pela Fundação Lemann para receber apoio técnico para o ensino remoto. O suporte deve durar dois meses, mas há possibilidade de renovação. A interrupção no calendário escolar ocorreu para prevenção ao contágio do novo coronavírus.  

O apoio é personalizado conforme o cenário e as necessidades específicas de cada uma das cidades e o planejamento de todas as ações feito com a participação e envolvimento das equipes de cada rede.

“Nada substitui o trabalho do professor e a vivência em sala de aula, mas é vital que busquemos medidas de redução de danos para os alunos, com materiais de qualidade pedagógica e de fácil acesso”, diz Denis Mizne, diretor executivo da Fundação Lemann.

O apoio da fundação envolve diagnóstico dos desafios e condições da rede de ensino; e planejamento de ações de ensino remoto, com co-construção ou finalização de planejamentos já iniciados. O item inclui a curadoria de conteúdos pedagógicos de qualidade (analógicos e digitais) e o apontamento de estratégias para garantir a aprendizagem remota.

Além disso, há o apoio à implementação das ações planejadas. Por fim, acompanhamento para aprimorar as ações em curso. Depois de tudo isso, há uma sistematização e divulgação das ações, visando a multiplicação de práticas que se provarem efetivas.

Carga horária

A partir de consulta feita pela Undime, 80 municípios do Ceará responderam que estão aplicando conteúdo que deve ser aproveitado na carga horária mínima de 800 horas exigidas pelo MEC.

Literatura Cearense –

O INESQUECÍVEL SEMINÁRIO DA BETÂNIA, depoimento de Modesto Siebra Coelho, na Betânia: (1962 e 1963)

Este texto é produto da memória que guardo dos fatos. O prazer de fazê-lo é incomensurável e apesar da natural fragilidade do recurso utilizado, espero ser fiel no que narrar. A publicação de uma coletânea reunindo nossos feitos e memórias, a partir do Seminário Diocesano de São José de Sobral, nossa casa por vários anos, à ocasião das comemorações dos 100 Anos da Diocese de Sobral, ecoa como acontecimento histórico. O Seminário é uma das joias raras da Diocese e nós, ex-seminaristas, nos sentimos honrados por fazer parte de sua história e por poder transmitir aos nossos familiares, amigos, admiradores e seguidores, por meio de registros e relatos singulares, um legado de nossas experiências de vida.

Como e porque fui para o Seminário

Filho de pais católicos engajados, desde cedo comecei a receber os estímulos que me levariam aoSeminário. Aos sete anos de idade, já testemunhava seu Vicente Siebra e dona Ana Maria, preceptores voluntários quando jovens, discutindo à mesa, os rumos que queriam para os seus filhos e filhas. Éramos sete e meu pai depois de recitar a futura profissão de seis, voltava-se para mim e, de modo firme, transparecendo contentamento, decretava: você, Modesto, vai para o Seminário. Vai ser padre! A hora era a das refeições em família e eu saboreava o que ouvia com entusiasmo e inocente satisfação. Na minha “grande família” já havia primo padre, prima freira e seminaristas. Via-me cercado de boas influências. Fiz da ideia um ideal: iria para o Seminário! Queria ser padre! Meus pais sabiam o que isso significava. O Seminário destacava-se como referência de Educação e padre era esteio na sociedade por sua sublime missão.

Logo fui aceito como membro da Cruzada Eucarística, virei coroinha requisitado para as missas de domingo e ingressei na Escola Preparatória para o Seminário, a Escola Cura d`Ars, da Paróquia de Itapipoca, cujos orientadores eram o Pe. Francisco Abelardo Ferreira Lima e o Pe. Paulo Eduardo de Andrade Pontes. O primeiro destacou-se por seu papel como incansável estruturador das campanhas que conduziriam à criação da Diocese de Itapipoca (1971) e o segundo, o seu primeiro Bispo Diocesano. Na Escola Cura d’Ars, fiz três anos de estudos regulares e de preparação cívica, moral, religiosa e disciplinar para a empreitada que viria. A professora Benedita Magalhães apresentou de público o seu relatório: eu estava pronto! Os padres aprovaram a minha preparação e, como faziam com outros jovens da Paróquia, me confiaram ao Seminário Arquidiocesano de Fortaleza. Era 12 de fevereiro de 1958, tinha treze anos de idade. De Itapipoca a Fortaleza, sozinho e apreensivo, por cinco horas de sacolejante e poeirenta viagem de ônibus, não tirei das mãos a carta de apresentação que bem acomodada conduzia dentro do Livro do Seminarista que ainda hoje conservo entre os meus guardados, presente do primo Franciné Ferreira que seria ordenado padre nesse mesmo ano.

Minha Turma no Seminário de Sobral (1962 e 1963)

Minha passagem pelo Seminário de São José de Sobral, o inesquecível Seminário da Betânia, se dá do início de 1962 ao final de 1963. Entrei no 4º Ano Ginasial. Foram dois anos que marcaram a minha vida para sempre, tanto pelo que vi, quanto pelo que vivenciei.

Lembro-me bem de cada um dos colegas de classe. Passados 50 anos, ainda sou capaz de descrever rostos, falar sobre o caráter, discorrer sobre modos de vida em comunidade, comentar sobre o desempenho intelectual e cultural, esportivo e de vida religiosa de todos da minha turma. Creio que, da mesma maneira, também ainda se lembrem de mim, o Novato da Prainha, alcunha de vida curta que me conferiu o Padre Luizito, logo na chegada, em fevereiro de 1962, ao curso de acalorada discussão sobre tempos e conjugação do verbo anômalo latino volere, conhecimento que eu trazia dos estudos do latim no Seminário da Prainha, onde no 3º Ano Ginasial já se traduziam trechos de Cícero e, no 4º Ano, de Virgílio.

Não éramos santos nem demônios. Éramos jovens vibrantes, alegres, audaciosos, cheios de sonhos, convicções e angústias pessoais, empenhados nos estudos, convivendo com harmonia, preparando-nos para a vida e para o sacerdócio. Como quaisquer jovens, desentendíamo-nos e nos entendíamos à velocidade das confissões espirituais costumeiras.

Sempre afirmei que a melhor coisa que me ocorreu na vida foi ter ido estudar no Seminário de Sobral. Ali encontrei uma instituição reformulada, aberta, onde se respirava liberdade e os seminaristas conviviam sem grandes distanciamentos entre si mesmos e com seus dirigentes, professores ou orientadores. A Betânia, naquele momento, contava com uma pequena equipe de padres-professores que aos nossos olhos era qualificada, harmônica e bem comandada.

Vinha de um Seminário grande e bem mais fechado, onde a expressão “falar com o Reitor” carregava amplos significados. De plano, senti a diferença e, sem demora, procurei me integrar. Para ilustrar a abertura a que me refiro, resumo uma historinha que se passou comigo. Mal completara um mês de casa, passei por um perrengue danado. A seleção de futebol do Seminário, da qual eu já era um dos volantes, jogava contra um bom time da cidade de Massapê, capitaneado pelo ex-seminarista José Arlindo Soares, primo do Pe. João Batista Frota, e no meio da partida recebo um bilhetinho para comparecer ao Gabinete do Reitor. O chamado me desnorteou. Passei o restante do jogo preocupado e a me perguntar: – O que esse Reitor quer comigo? Nem bem cheguei aqui e já estou sendo chamado ao seu Gabinete. Que fiz eu? Será alguma repreensão? Irá me mandar para casa? Nossa seleção não perdeu a partida. Cheguei até a fazer gol, mas, naquele dia, meu desempenho em campo sofreu críticas. E, de tão atordoado com o tal bilhete, fui parar no Gabinete do Reitor ainda em trajes de jogo.

Até ali, eu ainda não havia entendido por completo que estava em um Seminário onde as relações interpessoais eram menos distantes e mais abertas. Padre Zé, como carinhosamente o chamávamos, soubera que eu tinha letra boa e queria apenas que eu fosse a todas as classes e escrevesse um aviso seu aos seminaristas. Pena que eu não lembre o texto que com letras ainda mais caprichadas, em meia tarde, grafei em todas as salas de aulas. O contato com o Reitor e a deferência simples que me concedeu transformaram-se em estalos que, a pouco e pouco, me levariam a superar medos tolos e a conquistar a segurança de que precisava como jovem em formação. E mais, foi porta para outras missões que não tardou em me delegar esse admirável pequeno-grande Mestre e que trariam sólidos reflexos a um amadurecimento que ainda buscava.

Modesto Siebra Coelho

 declamando o poema Perfil de Hospício, de Alberico Bruno, em evento público no Salão Nobre do Seminário de Sobral – Ceará (1963), em homenagem às famílias dos seminaristas.

Ao longo do tempo, afirmei sempre que a minha vida foi moldada na minha família e nos Seminários em que estudei. O caráter, disciplina, princípios, valores cívicos, morais e religiosos, a disposição para o trabalho e o prazer pelos estudos tiveram suas referências básicas tecidas nesses dois ambientes.

A formação que passei a receber no Seminário de Sobral, além de especial, veio à hora certa. Despertou-me! Abriu minha mente para as primeiras compreensões de mundo e sociedade, do papel da Igreja, de desenvolvimento e subdesenvolvimento, de lutas sociais, de responsabilidade individual e coletiva. Discutíamos o Concilio como gente grande.

Ali, no âmbito do estudo das escolas literárias e de leituras que, pessoalmente, priorizava, nasceriam os primeiros contatos do quintanista com as obras de Machado, Gorki, Eça, Fernando Pessoa, Euclides da Cunha, Graciliano, Mário e Oswald de Andrade, e com a poesia de Castro Alves, Bandeira, Drummond, Vinicius, Jorge de Lima, Geir Campos, Cecília Meireles, encontradas na nossa Biblioteca, ou que adquiria por iniciativa própria.

Os ares saídos da JEC por vezes, nos atiravam a leituras mais ousadas, e para não chamar a atenção encapavam-se os livros que circulavam entre membros do pequeno circuito dos jecistas. Recordo-me de Ody Mourão me passando para leitura, sobrecapado, o romance A Mãe, de Máximo Gorki, obra que, à época, despertava entusiasmo político e seduzia jovens leitores no mundo inteiro.

Serei eternamente reconhecido ao Pe. José Linhares, nosso Reitor, por alguns atos que tiveram influência positiva na minha formação: a escolha para integrar o núcleo da Juventude Estudantil Católica-JEC, ao lado de José Carlos Sabóia, Ody Mourão, François Torres, José Henrique Leal e Abner Melo; a minha indicação para concorrer por eleição direta ao cargo de Secretário Geral da OVS; a designação como Prefeito de Disciplina, com menos de um ano da minha chegada ao Seminário de Sobral; a minha escalação para atuar em peças teatrais (dramas) que eram encenadas para a comunidade interna, seus familiares e convidados.

Serei para sempre grato ao estimado Pe. Oswaldo Chaves por me incentivar à leitura e à escrita e a publicar o meu primeiro texto no Correio da Semana. Por certo período, anos depois me tornei colaborador assíduo desse histórico semanário da Diocese. Estes fatos e gestos aparentemente simples tiveram enorme significação para a autoestima de um tímido jovem em formação. Foi no Seminário de Sobral que tive a percepção de que começava a me descobrir, a me conscientizar, como dizíamos na linguagem do internato.

O tempo, o destino e os caminhos vão distanciando as pessoas, mas bem que eu gostaria de voltar no tempo e me ver no velho Casarão da Betânia, em dia normal de funcionamento. E como outrora, descontraído e à sombra de seus seculares oitizeiros, com direito a trilha sonora vinda da inconfundível Rádio Itamarati, comandada por Chico Sampaio e José Arimatéia Mourão, ficar a jogar conversa fora entre os velhos amigos do 4º Ano Ginasial (1962): Abdoral Pinho, Bruno Alves, Cristóvão Aragão, Flávio Machado, Erasmo Aguiar, Luciano Lobo, Flamarion Rodrigues, Wellington Meneses, Francisco Cunha, Fernando Frota, Jorge Linhares, Joviniano Lopes e Wellington Aguiar.

Fora da turma construí também amizades que se perenizaram: Pe. Albani Linhares, Pe. Luizito Dias, Pe. Sadoc Araújo, François Torres, Francisco José Rodrigues, Juarez Leitão, Aguiar Moura, Raimundo Vanderlan, Antônio Viana, Hairton de Carvalho, Vicente Abdias, José Inácio, dentre tantos outros.

Para mim, extraordinária e valorosa foi, ainda, a convivência, de 1994 a 2000, no próprio Casarão da Betânia que se tornara campus-sede da UVA, com vários outros ex-betanistas de períodos e turmas diferentes dos meus. Para ali voltei como Professor Visitante, com muita satisfação, depois de 30 anos, para, ao lado de proeminentes profissionais, participar da revolucionária gestão do Reitor, Professor José Teodoro Soares, ele, também, um ex-betanista de alto coturno e homem-político, atualmente. Naquele momento, ocupavam postos de relevância na administração superior da instituição, os professores José Vitorino, Leunam Gomes, José Cândido, João Edison Andrade, Benedito Aguiar e José Portela.

Todas as turmas reunidas, do 1º ao 6º Ano, compúnhamos uma comunidade de cerca de 160 seminaristas. Havia tempo para rezar, estudar e recrear. O recreio era uma festa só! A vida fluía levemente. Tempos inesquecíveis aqueles! Era assim que eu me sentia. Feliz por estar ali!

A decisão de deixar o Seminário (dezembro de 1965)

Nenhum de nós desconhece a máxima do Evangelho: “muitos são chamados e poucos os escolhidos” Ao término do Seminário Menor, após muita reflexão, concluí que não era um dos escolhidos e redirecionaria a minha vida. Ante as minhas sólidas convicções até ali, mudar de rumo seria uma decisão doída e de muito sofrimento interior. Foram meses de diálogo com o vigário da paróquia, com o orientador espiritual e com amigos mais experientes. Fizera uma preparação para ingressar, entendi que deveria fazer outra para deixar o Seminário. Não foi fácil, mas acertei em fazê-la.

            Da minha turma dos anos de 1962 e 1963, em Sobral, nenhum se ordenou padre. Mas, fruto da formação que receberam e dos alicerces que ali souberam construir, todos foram exitosos nos novos caminhos buscados e vêm desempenhando brilhantes trajetórias profissionais na Advocacia, Medicina, Engenharia, Agronomia, Geografia e outras.

Formação e Trajetória Profissional

Deixei o Seminário em 1965 e um mês depois ingressei na Universidade. A pressa foi estratégia para driblar sofrimentos. A orientação do Pe. Francisco Luz, meu professor de História na Prainha, Diretor da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade Federal do Ceará, morador do Seminário, foi decisiva. Expus-lhe que buscava algo diferente. Não me interessavam os cursos tradicionais.  – “Ingresse, então, em interessante curso que a UFC acaba de implantar; você poderá atuar como professor, como geógrafo, ou nos dois campos, desde que faça a Licenciatura e o Bacharelado”, foram as suas palavras. Depois de várias conversas, optei pela Geografia como caminho profissional, obtendo a Licenciatura Plena em 1970 e o Bacharelado, em 1971. Estava habilitado para o exercício do magistério e de atividades técnicas como geógrafo. Logo ingressei no ensino superior para nunca mais largar. Iniciei na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Cajazeiras, da Diocese dessa cidade paraibana e, paralelamente, atuei no Ensino Público Estadual como professor de ensino médio. Por concurso público, em 1976, deu-se o meu ingresso como professor na Universidade Federal da Paraíba.

Professor, geógrafo, pesquisador, dirigente universitário é, de forma genérica, como organizo uma estruturação para a minha já longeva atuação e trajetória profissional. 

Vieram os de Aperfeiçoamento de Professores de Geografia pelo IBGE (1972); cursos de Especialização em nível de Mestrado em Planejamento Urbano e Metodologia de Projetos na Escola Nacional de Serviços Urbanos, Rio de Janeiro (1974/1975); Elaboração de Projetos e Metodologia de Pesquisas pela Fundação Getúlio Vargas (1977); Mestrado em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade de Paris III – Sorbonne Nouvelle (1989-1990).

Na Universidade Federal da Paraíba-UFPB, atuei como professor de diversas disciplinas da Geografia Física e Geografia Humana. Exerci os cargos de Pró-Reitor de Administração, Assessor de Planejamento, Diretor do Centro de Ciências Exatas e da Natureza, Chefe do Departamento de Geociências, Prefeito Universitário e Diretor da Editora Universitária. Na Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA: Pró-Reitor de Administração, Diretor do Centro de Letras e Ciências Sociais, Diretor da Casa da Geografia, Coordenador do Núcleo de Desenvolvimento Local. Na Fundação de Ensino Superior de Cajazeiras-FESC: Chefe do Departamento de Ciências Exatas e Sociais. No Instituto Ensino Superior da Paraíba-IESP: Diretor Acadêmico e Diretor de Recursos Humanos. No Governo Municipal: Secretário de Administração e Planejamento da Prefeitura de Cajazeiras-Paraíba. No Governo Estadual: Assessor de Planejamento da Secretaria de Planejamento do Governo da Paraíba. No ensino privado: Diretor do Colégio Sobralense GEO.

Função atual: Diretor Administrativo da Universidade Aberta Vida, em João Pessoa-Paraíba.

Dentre outros, fui pesquisador e Coordenador Geral do Projeto Geografia e Ecologia da Paraíba – Convênio UFPB/CNPq-Brasil e CNRS/Universidade de Bordeaux, França (1980/1984) e do Projeto de Delimitação e Regionalização do Brasil Semiárido – Acordo CNPq/UFPB (1982/1984). 

(Discurso ao receber o título de Cidadão Paraibano – 2010)

Entre os principais trabalhos que publiquei, cito: A Nova Onda no Transporte Urbano – Mototáxi, livro, Sobral-Fortaleza, (1997); De Sobral ao Global – Um percurso pela questão urbana, livro, Sobral-Fortaleza, (2000); L’homme traditionnel dans l’environnement sertanejo, cap. de livro, Bordeaux-França (1980); Brésil: des capitales universitaires aux technopoles, cap. de livro, Paris (1994). Sobral Ceará (Brazil), cap. de livro, Fortaleza-Ceará (2005). Em 1990, defendi a dissertação de Mestrado intitulada: Le développement de la Sc. & T. dans le Nordeste Brésilien: le cas du pole technologique de Campina Grande, na Universidade Paris III, Sorbonne Nouvelle, Paris (1990).

Membro da Associação dos Geógrafos Brasileiros-AGB. Membro Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano-IHGP desde 2010.

Ao curso destes escritos, mencionei os agentes e atores religiosos importantes para a minha formação básica, com os Seminários como referência; ao seu final, menciono os agentes e atores universitários que, ao me convocarem para funções de relevância, agregaram valores incalculáveis à trajetória profissional que construí. Entre outros, cito os ex-Reitores: Gualberto de Andrade, Lynaldo Cavalcante, Milton Paiva, Berilo Borba, Jackson Carneiro, Antônio Sobrinho, Teodoro Soares e Antônio Colaço.

Diz-se comumente que toda profissão é sacerdócio. É certo que desisti do sacerdócio que almejava e dei outro rumo à vida, mas é igualmente verdadeiro que me sinto realizado com as escolhas que fiz e seguro para afirmar que transformei a atuação em Educação e a profissão de professor que abracei em novo sacerdócio ao qual me dedico até hoje.

Minha Família

Sou casado com Maria Wanderly Oliveira Siebra Coelho, Pedagoga e Historiadora. A cerimônia do nosso casamento, em 10 de abril de 1972, foi celebrada pelo Padre José Nilson de Oliveira Lima (in memoriam), então vigário da paróquia de Wanderly, meu professor na Prainha e um amigo de toda a vida. Nossos filhos: Andrea Oliveira Siebra Coelho Vinet, professora universitária no Canadá (Universidade de Ottawa) e Marcos Oliveira Siebra Coelho, médico, residente no Rio de Janeiro. Andrea é casada com Philippe Jean Lucien Vinet, engenheiro TI. Residem em Ottawa e nos deram os netinhos Julie Siebra Coelho Vinet e Olivier Siebra Coelho Vinet.

Texto extraído do livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – AD VITAM – 65 DECLARAÇÕES DE AMOR, de Leunam Gomes e Aguiar Moura – Edições UVA, Sobral, 2015, escrito por MODESTO SIEBRA COELHO, em João Pessoa, agosto de 2014.

COMÉDIA OU TRAGÉDIA? Autoria de Aninha Martins

Em meio a tudo isso que estamos vivendo, mesmo tendo fé, esperança, confiança em Deus, ninguém pode negar que existe medo, tristeza, muitas dúvidas e incertezas, é fato. E precisamos de alguém que nos transmita conforto e leve a sério essa situação.

Agora, mais do que nunca, vejo que estamos entrando em um verdadeiro caos. Me custa acreditar que esse “louco”, infelizmente, não tem outro adjetivo para atribuir ao presidente do Brasil, nomeou uma outra criatura que parece ser igual ou pior que ele para ocupar o cargo de Ministro da Saúde.

Detesto politicagem, não tenho nenhum partido político e como sei que as pessoas costumam ter ‘político de estimação’, onde tudo que esse faz é louvável, assim como tudo que a oposição faz ‘é ilegal, é imoral’, não acredito muito no que me dizem em relação a algum.

Então, prefiro conferir, e vendo um vídeo com a fala do novo ministro (tomara que seja fake!). Tive a certeza: estamos assistindo o nosso país viver uma eterna peça teatral, oscilando entre a comédia e a tragédia…

Aninha Martins, de Ipu – Professora, Escritora e Poetisa

EU VI ANJOS

EU VI ANJOS! *  

Eu sabia dos anjos sobre os quais minha mãe me falava na minha infância. O Anjo da Guarda, por exemplo, que nos protege a mandado de Deus. Ele me era apresentado em estampas com enormes asas e as mãos gesticulando prontidão para proteger as crianças.  Depois soube de outros anjos como o que anunciou o nascimento de Jesus e os serafins que o profeta Isaias viu ao redor do Senhor assentado em alto e sublime trono (Is.6).

Hoje em dia, Anjo até virou moda. Anjinhos que servem de adornos, de lembranças, de presentes. Até secretárias, recepcionistas e telefonistas menos preparadas criaram o hábito de chamar cliente de “meu anjo”.

Mas eu quero mesmo é falar a respeito dos anjos que eu vi. Vim, sim! Só que esses anjos que eu vi e conheci de perto e com os quais até fale, são diferentes daquelas figuras bem pintadas e desenhadas. Não têm rosto de criancinha nem cabelos encaracolados, com cachinhos e topetes caídos na testa. Os anjos que conheci, com os quais fiquei encantado, extasiado e reverente até, não têm semblante tranquilo…. embora nos transmitam muita tranquilidade.

Esses anjos que eu conheci e aprendi a admirar, convicto de que são mensageiros de Deus, são diferentes dos seres humanos  – embora sofram como os seres humanos comuns.

Não são seres sobrenaturais, porém não agem com naturalidade. Suas vestes não são resplandecentes, porém, são, geralmente, brancas embora possam ser verdes, beges, azuis e, às vezes, até desbotadas e amarrotadas. Nunca estão impecáveis, pois suas atividades não que seus trajes estejam impecáveis. Impecáveis são suas mãos habilidosas, são suas atenções fixas nos gestos e nos sintomas de quem os rodeiam. Seus ouvidos estão atentos aos sinais dos alarmes dos muitos aparelhos que estão à sua volta que podem tocar intermitentemente. Sua atenção está voltada para uma lágrima vertida ou para a tentativa de um sorriso a se esboçar no rosto inerte de alguém.

Estes anjos choram em silêncio com o gemido de quem sofre ao seu lado, e dão pulos de alegria com o tênue sinal de melhora de alguém que já estava sem esperança.

Esses anjos existem. Sim, existem. São vocacionados por Deus. Mensageiros de Deus. São os braços de Deus; as próprias mãos de Deus; são o toque de Deus, trazendo alento aos que sofrem, afofando-lhes o leito da dor, conforme disse o salmista (Sl.41,3).

Ah, como é lindo o sorriso desses anjos. Como é resplandecente o semblante desses anjos. Como é bom ter a certeza de que esses anjos existem e estão por perto na hora da dor.

Sim. EU VI ANJOS. Eles não “aparecem”. Eles estão sempre lá nas UTIs, nos hospitais, nas clínicas e home cares.

Como é maravilhoso pronunciar os nomes desses anjos: ENFERMEIROS, TECNICOS E AUXILIARES DE ENFERMAGEM e DEMAIS PROFISSIONAIS DE SAÚDE.

Graças a Deus porque esses anjos existem! Existem sim. Eu os vi.

* Texto de ELIAS AZULAY – Prof. Aposentado da UFMA, Jornalista, Relações Públicas.

São Luís, Ma.12/04/2020.

QUEBRANDO A TRADIÇÃO: FESTEJOS JUNINOS SERÃO ADIADOS. Por Luís Pedro, de São Luís/Ma.

“No mês de maio tá todo o povo ensaiando” diz o poeta Chico Saldanha na bela música Boi de Itamirim. Mas, este ano, devido à epidemia de coronavírus não vai ser assim. Em maio, o período de propagação do vírus deve estar no seu auge, no Maranhão, e boa parte dos grupos de bumba-boi suspenderam ensaios e não estão contratando apresentações.

Os festejos juninos são as mais importantes manifestações culturais do Estado. Só de bumba-boi há mais de 200 grupos de cinco “sotaques”. Significa dizer ritmos, indumentárias e instrumentos diferentes em cada um dos “sotaques”. Mas, há muito mais: grupos de tambor de crioula, cacuriás, danças ciganas, do boiadeiro, quadrilhas, além dos bois para-folclóricos como o Barrica e o Pirilampo, que recrutam belas “índias” na classe média de São Luís.

 Somente os brincantes, como se chamam os participantes dessas manifestações, contam -se aos milhares. Apenas um boi, o da Maioba, congrega centenas de brincantes e mobiliza milhares em seus ensaios e apresentações. Muitos seguem a trajetória de apresentações dos bois mais importantes. A irreverência popular chama essas pessoas de mutucas, em alusão ao inseto que seguem os bois de verdade, o mamífero que deu nome à manifestação.

Tanto o secretário de Cultura de São Luís, Marlon Botão, quanto ao do Estado, Anderson Lindoso, preveem um adiamento dos festejos para (quem sabe?) um mês mais à frente, talvez setembro. Lindoso informa que todos os prazos de editais estão suspensos, o que significa dizer que os recursos do Estado não vão irrigar os grupos culturais no mês de junho.

Também há um viés religioso em questão. Muitos grupos têm origem em promessas aos santos da tradição católica e que são festejados em junho, como Santo Antônio, São João, São Pedro e São Marçal. Tradição que vai ser quebrada pela pandemia. Quebrada, mas não extinta. Apenas adiada. Pois, como diz Zeca Baleiro em Pedra de Responsa: “Mamãe, eu volto pra Ilha nem que seja montado na onça”

(Fonte: Brasil Popular, edição Nº 93) Redação do jornalista LUÍS PEDRO

Pós graduação em EDUCAÇÃO BIOCÊNTRICA

O CENTRO DE DESENVOLVIMENTO HUMANO – CDH e a Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA – abrem inscrições para a Nova Turma de Pós-Graduação em Educação Biocêntrica – A Pedagogia do Encontro. A proposta da Educação Biocêntrica é que o processo de aprendizagem-desenvolvimento (ensino-aprendizagem-desenvolvimento-avaliação) se dê de forma leve, alegre, prazerosa e afetiva. Este curso tem um efeito transformador na vida pessoal e profissional das pessoas que dele participam.

OBJETIVOS

 Proporcionar fundamentação (essência) teórica e prática capaz de conferir aos profissionais, uma visão completa do universo e das questões sociais dentro de um pensar científico relacionado com ações que favoreçam um sentido evolucionário da vida;

 Estimular a participação criadora para a compreensão da vida, desenvolvendo a criatividade e sensibilidade frente a si mesmo, ao outro e à realidade educacional, política, econômica e social;  Capacitar os participantes/as participantes para elaboração e aplicação de Projetos Pedagógicos de Educação Biocêntrica nas áreas Escolar, Comunitária e organizacional.

TEMAS GERADORES E RESPECTIVOS FACILITADORES


01

História, Concepção e Conceituação da Educação Biocêntrica

Ruth Cavalcante
01História, Concepção e Conceituação da Educação BiocêntricaRuth Cavalcante
02Marcos Epistemológicos da Educação Biocêntrica I: Paulo FreireLeunam Gomes
03Marcos Epistemológicos da Educação Biocêntrica II: Edgar MorinJulio Torres
04Paradigma Biocêntrico e Cultura Biocêntrica e Marcos Epistemológicos da Educação Biocêntrica III: Rolando ToroCezar Wagner
05Teoria da Educação Biocêntrica e suas CategoriasCarmen Paula Rozane Alencar
06O Método Integrativo Biocêntrico: reflexão-diálogo-vivência-ação – um método transdisciplinarSara Góis
07Didática da Educação Superior na Educação Biocêntrica ICustódio Almeida
08Didática da Educação Superior na Educação Biocêntrica IICândida Câmara Helena Campelo
09Inserção Etno-vivencial nas áreas de Atuação em Educação Biocêntrica: Escolas, Comunidades e Organizações.Ana Luiza Menezes
10Processo Grupal em Educação Biocêntrica e a atuação Evolucionária do Educador BiocêntricoBetania Moura Cleusa Denz
11Vivências Pedagógicas da Educação Biocêntrica nas EmpresasMelina Barbosa
12Dinâmica da PesquisaIdalice Barbosa
13Vivências Pedagógicas da Educação Biocêntrica nas escolas e comunidades.Carla Weyne e Zeza Weyne
14Processo de acompanhamento e avaliação em Educação Biocêntrica – Síntese do aprendido e celebração da colheitaRuth Cavalcante
Livro de Referência

Literatura Cearense

NO SEMINÁRIO, FIZ GRANDES AMIZADES.

Sebastião TEOBERTO Mourão LANDIM, na Betânia de 1956 a 1960

Teoberto Mourão Landim

Nasceu em 2 de março de 1943. Filho de Francisco Furtado Landim e de Heleônidas Mourão Landim, costuma dizer que seus pais e os irmãos são cearenses, e ele, por um acidente de percurso, nasceu em PIO IX, no Piauí, mas se considera cearense, por aqui ter chegado com seis meses de idade e ao Ceará dever toda a sua formação.

Os dez primeiros anos viveu em Ararendá, no sopé da Serra da Ibiapaba, clã dos Mourões e núcleo dos familiares maternos. No início dos anos de 1950 a família se transfere para a cidade de Crateús, onde Teoberto Landim e os irmãos foram matriculados no Instituto Santa Inês, escola de Ensino Fundamental, dirigida pela legendária professora Francisca de Araújo Rosa, respeitada educadora nos tempos da palmatória. Ficou apenas dois anos em Crateús, sendo logo encaminhado por seu padrinho, Pe. Francisco Soares Leitão, vigário de Nova Russas, para o Seminário Diocesano São José, de Sobral, com bolsa de estudo doada pela Diocese de Niterói, do Rio de Janeiro.

No Seminário interessou-se pelos estudos clássicos. Cinco anos depois descobriu que não tinha vocação para o sacerdócio, e, contrariando a vontade dos pais, deixou a batina em 8 de dezembro de 1960. Como os estudos feitos no Seminário não eram equivalentes aos dos colégios leigos, matriculou-se no Colégio Estadual Lyceu do Ceará depois de exames de adaptação. Concluiu o Ensino Médio em 1963 e no ano seguinte fez os preparatórios, ingressando em 1965 no Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará. Licenciou-se em Letras Vernáculas e respectivas literaturas em 1968, período crítico da ditadura, que não permitiu a colação de grau coletiva, tendo esta sido feita na própria secretaria da Faculdade.  Desde 1965 Teoberto Landim exerce o magistério, lecionando em vários colégios de Fortaleza, entre os quais o Colégio Arminda de Araújo, onde começou, e nos Colégios, Santo Inácio, Santa Cecília, Júlia Jorge, Imaculada Conceição. Além de professor foi diretor dos colégios Demócrito Rocha e João Pontes, ambos da CNEC, e do Curso Equipe – pré-vestibular.

Ingressou no magistério superior como professor de Literatura Brasileira do Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará em março de 1977, e, em abril de 1995, fez concurso para a classe de Professor Titular de Literatura Brasileira da mesma Universidade, onde permaneceu até 2013, aposentado pela compulsória.

Em 1980 Teoberto Landim foi cursar o mestrado em Letras na PUC/RJ, concluindo em junho de 1983, e logo em seguida ingressa no Curso de doutorado em Letras na mesma Instituição. Concluídos os créditos, ganhou bolsa do DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico) da Alemanha onde deu continuidade aos seus estudos na Universidade de Colônia, concluindo sua tese de doutorado e defendendo-a em 1989. A partir de então, suas relações com a Universidade de Colônia lhe valeram vários convites para retornar, ora como Professor Visitante, ministrando curso de literatura e cultura brasileira, ora como Professor Pesquisador, com a colaboração do Professor Doutor Helmut Feldmann, e, atualmente, com o Professor Doutor Claudius Armsbruster, diretor do Instituto de Estudos Luso-Brasileiro, daquela Universidade.

No setor administrativo da UFC, Teoberto Landim foi, por várias vezes, chefe do Departamento de Literatura e Coordenador do Curso de Mestrado em Letras, onde orientou muitas dissertações de mestrado. Foi também Diretor do Centro de Letras e Artes da UVA, em Sobral, por quatro anos.

Atualmente, aposentado, se dedica à pesquisa acadêmica, o que lhe tem rendido muitas publicações: Conversa fiada(contos) – 1983; Tocando em miúdos(ensaios) – 1984; Busca (romance) – 1985;  Literatura sem fronteiras(ensaios)  – 1990; Seca: a estação do inferno(ensaios) – 1992;  Colheita tropical(ensaios) – 2000; A próxima estação (romance)  – 2002; Escritos do cotidiano(ensaios) – 2003; Ideia, pra que te quero(ensaios) – 2004; Seca: a estação do inferno – 2a. ed.(ensaios) – 2005, além de artigos publicados em jornais e revistas especializados. Em 2009 publicou seu livro de poesia: As noites acumuladas dos meus dias, e em 2014 publicou seu segundo livro de poesia, Agreste Avena. Em 1990, Teoberto Landim foi eleito membro da Academia Cearense de Letras, titular da cadeira nº 37, cujo patrono é Tomás Lopes.

Em 2010 foi nomeado pelo Governador Cid Gomes Conselheiro do Conselho Estadual de Educação onde ocupa a função de Presidente da Câmara de Educação Básica.

UM DESTINO MAL TRAÇADO.

Era uma noite de dezembro de 1955. Meu pai chegou de viagem, vinha de Nova Russas, cidade vizinha, sem avisar. Trazia no semblante uma alegria bem diferente de outras oportunidades preocupantes. Ninguém na Estação para recebê-lo, apenas o capataz carregando sua maleta. Até mesmo minha mãe se surpreendeu com sua chegada fora de época. Eu e meus irmãos ficamos na expectativa do que deveria ter acontecido. Revimos nossas travessuras com medo de castigo…  Mas não, logo minha mãe serviu o jantar e sem muita delonga, ele me olhou firme e disse: você vai para o seminário de Sobral, no próximo ano. E completou: seu padrinho arranjou uma bolsa de estudo com a Diocese de Niterói, do Rio de Janeiro. Na próxima semana você vai comigo para Nova Russas. O Antônio seminarista vai preparar vocês para o exame de admissão, em fevereiro. Este vocês… éramos cinco candidatos, José Arteiro e Luiz Torres (o Mimoso), ambos de Ararendá; Cicero Matos e Erivaldo Pedrosa (de Nova Russas) e eu, um fora do lugar. Quando nos encontramos pela primeira vez nas aulas, vi em suas caras tudo, menos futuros padres. Fizemos os exames e todos ficamos no Preliminar, que correspondia ao quinto ano primário, na linguagem de hoje, o 5º ano do Ensino Fundamental. 

O ritual de vestimenta da batina foi muito emocionante. O canto entoado pelas vozes da Scola Cantorum, e a harmonia que despertava sentimentos celestiais saiam das mãos mágicas do João Bosco, ora das do Jairo Linhares, parecia que estávamos no céu. Depois foi que me toquei que, com pensamentos não tão angelicais, não poderia eu estar no céu… estávamos mesmo na Betânia. Mas os olhos fulminantes da menina Núbia, irmã do Antônio seminarista, me perturbaram por muito tempo, foi meu primeiro alumbramento e a certeza de que minha vida no seminário era por tempo determinado. Engraçado, nunca falamos de amor um para o outro, apenas nos olhávamos. Mas tudo passou tão rápido que passei a aceitar que a distância e o tempo são agentes destruidores de sentimentos como esses.

No velho e saudoso casarão da Betânia, vivi antagonismos: ora momentos hilariantes, ora momentos de muita seriedade. Um desses momentos engraçados vivi nas aulas de Geografia, o professor era o Pe. Marconi Montezuma que sempre chegava atrasado. Mas quando chegava à sala parecia que dava aula brincando. Um dia no primeiro ano ginasial, ele mandou que todos abríssemos o atlas geográfico… e começou a falar das capitais dos estados brasileiros; aprendíamos o nome e aprendíamos a localizar no mapa. Um certo momento, ele percebeu que o Mimoso (Luiz Torres) estava cochilando… o padre professor saiu do sério… jogou um pedaço de giz nele, se lastimou de ser professor, e, ajoelhado orou: Senhor, fazei desse desgraçado um professor. Talvez que com medo de ser padre e/ou professor, o Mimoso só ficou um ano no seminário.

              Certa vez alguém no seminário descobriu o gosto do padre professor de Francês  por histórias em quadrinhos, que aliás éramos proibidos de ler. O colega Antônio dos Santos, na época das provas, conseguia, não sei por que meios, essas tais revistas, e as distribuía pelas janelas da sala de aula. Depois que o professor passava a prova e que se deparava com as revistinhas, se esquecia do tempo e das aulas; e aí a pescaria corria solta. Olha, leitor, fique certo, tudo era sem maldade…

              Os melhores dias do seminário eram sempre a quarta-feira, sábado à tarde e domingo. Era dia de futebol. Afinal éramos jovens, praticamente era nossa melhor diversão. Vez por outra se organizava um campeonato. Num desses campeonatos me destaquei como goleiro, e meu time foi para decisão. O Wanderley era o dono do time, e me viu nervoso na véspera do jogo final. Seus familiares moravam em Sobral, julgo que por esse motivo foi fácil para ele conseguir uns comprimidos de tranquilizante. O resultado dessa história foi que acabei com minha carreira futebolística… fiquei sem ação nas traves e não via nem por onde a bola passava, tomei seis gols nesse dia.

              Foi no seminário que fiz grandes amizades. Muitas delas manifestadas quando já estávamos no mundo, aqui fora. Tinha admiração por muitos mestres. Na época, meu reitor era o Padre Austregésilo de Mesquita Filho, depois tornou-se bispo. Era uma figura admirável, apesar de me pegar no pé porque sempre fui péssimo aluno de matemática. Quando sai do seminário, uns seis meses depois, o encontrei no trem, eu ia para Crateús e ele para Nova Russas, ia ajudar nos festejos da padroeira. Ao cumprimentá-lo, ele me deu um abraço, e foi logo indagando: e a matemática? E eu respondi: o pouco que aprendi com o senhor foi o bastante para passar num concurso público federal (Correios). Ele foi responsável também por eu ter passado cinco anos no seminário; porque pelo gosto de meu bem mal diretor espiritual eu teria saído no mesmo ano. Ele, diretor espiritual, se escandalizava quando eu lhe dizia que não conseguia esquecer a menina Núbia, irmã do Antônio seminarista.

              Ainda ouço o ranger dos pneus da bicicleta do Pe. Osvaldo Chaves, nos longos corredores do casarão da Betânia, ele foi o melhor, o mais culto de todos. Com ele aprendi a ler e interpretar, aprendi a gramática, aprendi a ser o professor que fui até bem pouco tempo. Devo a ele meu interesse pelas letras. Seus ensinamentos foram importantes na minha vida acadêmica e profissional. Tornei-me professor de literatura, mas confesso, não cheguei aos seus pés.

              Estudei latim brincando de ler Pinóquio, com o Pe. Sadoc recém-chegado de Roma. Confesso que a metodologia falhou porque faltou interação com a gramática latina. Tanto que, no segundo ano, nos faltou conhecimento de todas as declinações. Falha superada com o Pe. Arnóbio, com sua paciência e bondade nos preparou para lermos Virgílio no primeiro semestre do quarto ano com o Pe. Edmilson Cruz. Não sei por que razão, no segundo semestre o Pe. Edmilson sai, e entra em sala para estudarmos Cícero e suas Catilinária um padre professor com um “burro” debaixo do braço. Para nós alunos, usar o “burro” era pecado mortal, mas para o professor que entrava era sua salvação. Por questão de ética deixo em segredo o nome dele.

              O seminário foi um espaço privilegiado para o meu desenvolvimento, uma usina de sentidos, sentidos de vida (ética), e de convivência (moral), e não passei por outra instituição social de que possa dizer o mesmo. Foi lá que aprendi que a transmissão dos valores culturais não se dá automaticamente, mas depende do modo de interação com o contexto. Desse modo, minha passagem pelo seminário foi profundamente marcada pela tarefa nem sempre fácil que é desenvolver em cada um, que lá está enclausurado, a sua autoestima, ensinar a se relacionar, a resolver seus conflitos particulares e o autocontrole de suas decisões e emoções.

              Entendi depois de muitos anos que o seminário como espaço que privilegiava a dimensão afetiva, contemplando a autoestima e o reconhecimento das potencialidades de cada um, colaborava para o desenvolvimento pleno de cada seminarista, quer ele seguisse a vida sacerdotal, quer fosse um cidadão comum.

              Portanto, a afetividade influencia positiva ou negativamente no processo de formação. Ela atua como fio condutor, nas palavras de Piaget como “elemento energético”, capaz de estimular o individuo a buscar o novo. Com fundamento na análise piagetiana sobre as relações entre afeto e cognição, compreendi que a afetividade não modifica as estruturas cognitivas, mas atua como fornecedora do sucesso ou do atraso. Afetividade é, assim, energia, impulso, motivação das condutas, é o que dirige o sujeito para um e não para outro objeto, é o que faz com que o sujeito escolha e valorize uma e não outra ação.

              Como disse antes, ingressei no seminário sem saber o que queria. Entendia o que meus pais queriam: um filho padre. Minha tenra idade não me permitia dizer o que eu queria, ou o que não queria… predominava a vontade dos pais. Minha aprendizagem no seminário me levou aos poucos a uma preparação para a saída honrosa, pois a conduta humana, qualquer que seja ela, possui dois elementos fundamentais: um estrutural (dado pela inteligência), que fornece os meios (cada vez mais complexos) que permitem solucionar os problemas que o mundo apresenta; e também o elemento energético (dado pela afetividade), que impulsiona o sujeito em direção a uma solução, a um objeto, valorizando mais, ou menos, suas ações, físicas e mentais, inserindo-as numa hierarquia valorativa.

              Foi nessa dimensão que me preparei para sair do seminário. Não sei se a conscientização emergia do todo ou da parte como ponto de partida, mas sei que o primeiro momento de minha conscientização foi o da dialética entre o vivido e o pensado no seminário e a ideologia nele contida, transmitida, sem crítica, sem tradição. Assim, no dia oito de dezembro de 1960, enquanto os colegas saíam em procissão no dia de Nossa Senhora, eu os acompanhava com lágrimas transbordando e inundando-me o rosto… eu já era um cidadão comum em busca de outros sonhos.

Texto extraído do livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – AD VITAM – 65 DECLARAÇÕES DE AMOR, de Leunam Gomes e Aguiar Moura – Edições UVA, 2015 – Sobral – Ceará