EU VI ANJOS

EU VI ANJOS! *  

Eu sabia dos anjos sobre os quais minha mãe me falava na minha infância. O Anjo da Guarda, por exemplo, que nos protege a mandado de Deus. Ele me era apresentado em estampas com enormes asas e as mãos gesticulando prontidão para proteger as crianças.  Depois soube de outros anjos como o que anunciou o nascimento de Jesus e os serafins que o profeta Isaias viu ao redor do Senhor assentado em alto e sublime trono (Is.6).

Hoje em dia, Anjo até virou moda. Anjinhos que servem de adornos, de lembranças, de presentes. Até secretárias, recepcionistas e telefonistas menos preparadas criaram o hábito de chamar cliente de “meu anjo”.

Mas eu quero mesmo é falar a respeito dos anjos que eu vi. Vim, sim! Só que esses anjos que eu vi e conheci de perto e com os quais até fale, são diferentes daquelas figuras bem pintadas e desenhadas. Não têm rosto de criancinha nem cabelos encaracolados, com cachinhos e topetes caídos na testa. Os anjos que conheci, com os quais fiquei encantado, extasiado e reverente até, não têm semblante tranquilo…. embora nos transmitam muita tranquilidade.

Esses anjos que eu conheci e aprendi a admirar, convicto de que são mensageiros de Deus, são diferentes dos seres humanos  – embora sofram como os seres humanos comuns.

Não são seres sobrenaturais, porém não agem com naturalidade. Suas vestes não são resplandecentes, porém, são, geralmente, brancas embora possam ser verdes, beges, azuis e, às vezes, até desbotadas e amarrotadas. Nunca estão impecáveis, pois suas atividades não que seus trajes estejam impecáveis. Impecáveis são suas mãos habilidosas, são suas atenções fixas nos gestos e nos sintomas de quem os rodeiam. Seus ouvidos estão atentos aos sinais dos alarmes dos muitos aparelhos que estão à sua volta que podem tocar intermitentemente. Sua atenção está voltada para uma lágrima vertida ou para a tentativa de um sorriso a se esboçar no rosto inerte de alguém.

Estes anjos choram em silêncio com o gemido de quem sofre ao seu lado, e dão pulos de alegria com o tênue sinal de melhora de alguém que já estava sem esperança.

Esses anjos existem. Sim, existem. São vocacionados por Deus. Mensageiros de Deus. São os braços de Deus; as próprias mãos de Deus; são o toque de Deus, trazendo alento aos que sofrem, afofando-lhes o leito da dor, conforme disse o salmista (Sl.41,3).

Ah, como é lindo o sorriso desses anjos. Como é resplandecente o semblante desses anjos. Como é bom ter a certeza de que esses anjos existem e estão por perto na hora da dor.

Sim. EU VI ANJOS. Eles não “aparecem”. Eles estão sempre lá nas UTIs, nos hospitais, nas clínicas e home cares.

Como é maravilhoso pronunciar os nomes desses anjos: ENFERMEIROS, TECNICOS E AUXILIARES DE ENFERMAGEM e DEMAIS PROFISSIONAIS DE SAÚDE.

Graças a Deus porque esses anjos existem! Existem sim. Eu os vi.

* Texto de ELIAS AZULAY – Prof. Aposentado da UFMA, Jornalista, Relações Públicas.

São Luís, Ma.12/04/2020.

QUEBRANDO A TRADIÇÃO: FESTEJOS JUNINOS SERÃO ADIADOS. Por Luís Pedro, de São Luís/Ma.

“No mês de maio tá todo o povo ensaiando” diz o poeta Chico Saldanha na bela música Boi de Itamirim. Mas, este ano, devido à epidemia de coronavírus não vai ser assim. Em maio, o período de propagação do vírus deve estar no seu auge, no Maranhão, e boa parte dos grupos de bumba-boi suspenderam ensaios e não estão contratando apresentações.

Os festejos juninos são as mais importantes manifestações culturais do Estado. Só de bumba-boi há mais de 200 grupos de cinco “sotaques”. Significa dizer ritmos, indumentárias e instrumentos diferentes em cada um dos “sotaques”. Mas, há muito mais: grupos de tambor de crioula, cacuriás, danças ciganas, do boiadeiro, quadrilhas, além dos bois para-folclóricos como o Barrica e o Pirilampo, que recrutam belas “índias” na classe média de São Luís.

 Somente os brincantes, como se chamam os participantes dessas manifestações, contam -se aos milhares. Apenas um boi, o da Maioba, congrega centenas de brincantes e mobiliza milhares em seus ensaios e apresentações. Muitos seguem a trajetória de apresentações dos bois mais importantes. A irreverência popular chama essas pessoas de mutucas, em alusão ao inseto que seguem os bois de verdade, o mamífero que deu nome à manifestação.

Tanto o secretário de Cultura de São Luís, Marlon Botão, quanto ao do Estado, Anderson Lindoso, preveem um adiamento dos festejos para (quem sabe?) um mês mais à frente, talvez setembro. Lindoso informa que todos os prazos de editais estão suspensos, o que significa dizer que os recursos do Estado não vão irrigar os grupos culturais no mês de junho.

Também há um viés religioso em questão. Muitos grupos têm origem em promessas aos santos da tradição católica e que são festejados em junho, como Santo Antônio, São João, São Pedro e São Marçal. Tradição que vai ser quebrada pela pandemia. Quebrada, mas não extinta. Apenas adiada. Pois, como diz Zeca Baleiro em Pedra de Responsa: “Mamãe, eu volto pra Ilha nem que seja montado na onça”

(Fonte: Brasil Popular, edição Nº 93) Redação do jornalista LUÍS PEDRO

Pós graduação em EDUCAÇÃO BIOCÊNTRICA

O CENTRO DE DESENVOLVIMENTO HUMANO – CDH e a Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA – abrem inscrições para a Nova Turma de Pós-Graduação em Educação Biocêntrica – A Pedagogia do Encontro. A proposta da Educação Biocêntrica é que o processo de aprendizagem-desenvolvimento (ensino-aprendizagem-desenvolvimento-avaliação) se dê de forma leve, alegre, prazerosa e afetiva. Este curso tem um efeito transformador na vida pessoal e profissional das pessoas que dele participam.

OBJETIVOS

 Proporcionar fundamentação (essência) teórica e prática capaz de conferir aos profissionais, uma visão completa do universo e das questões sociais dentro de um pensar científico relacionado com ações que favoreçam um sentido evolucionário da vida;

 Estimular a participação criadora para a compreensão da vida, desenvolvendo a criatividade e sensibilidade frente a si mesmo, ao outro e à realidade educacional, política, econômica e social;  Capacitar os participantes/as participantes para elaboração e aplicação de Projetos Pedagógicos de Educação Biocêntrica nas áreas Escolar, Comunitária e organizacional.

TEMAS GERADORES E RESPECTIVOS FACILITADORES


01

História, Concepção e Conceituação da Educação Biocêntrica

Ruth Cavalcante
01História, Concepção e Conceituação da Educação BiocêntricaRuth Cavalcante
02Marcos Epistemológicos da Educação Biocêntrica I: Paulo FreireLeunam Gomes
03Marcos Epistemológicos da Educação Biocêntrica II: Edgar MorinJulio Torres
04Paradigma Biocêntrico e Cultura Biocêntrica e Marcos Epistemológicos da Educação Biocêntrica III: Rolando ToroCezar Wagner
05Teoria da Educação Biocêntrica e suas CategoriasCarmen Paula Rozane Alencar
06O Método Integrativo Biocêntrico: reflexão-diálogo-vivência-ação – um método transdisciplinarSara Góis
07Didática da Educação Superior na Educação Biocêntrica ICustódio Almeida
08Didática da Educação Superior na Educação Biocêntrica IICândida Câmara Helena Campelo
09Inserção Etno-vivencial nas áreas de Atuação em Educação Biocêntrica: Escolas, Comunidades e Organizações.Ana Luiza Menezes
10Processo Grupal em Educação Biocêntrica e a atuação Evolucionária do Educador BiocêntricoBetania Moura Cleusa Denz
11Vivências Pedagógicas da Educação Biocêntrica nas EmpresasMelina Barbosa
12Dinâmica da PesquisaIdalice Barbosa
13Vivências Pedagógicas da Educação Biocêntrica nas escolas e comunidades.Carla Weyne e Zeza Weyne
14Processo de acompanhamento e avaliação em Educação Biocêntrica – Síntese do aprendido e celebração da colheitaRuth Cavalcante
Livro de Referência

Literatura Cearense

NO SEMINÁRIO, FIZ GRANDES AMIZADES.

Sebastião TEOBERTO Mourão LANDIM, na Betânia de 1956 a 1960

Teoberto Mourão Landim

Nasceu em 2 de março de 1943. Filho de Francisco Furtado Landim e de Heleônidas Mourão Landim, costuma dizer que seus pais e os irmãos são cearenses, e ele, por um acidente de percurso, nasceu em PIO IX, no Piauí, mas se considera cearense, por aqui ter chegado com seis meses de idade e ao Ceará dever toda a sua formação.

Os dez primeiros anos viveu em Ararendá, no sopé da Serra da Ibiapaba, clã dos Mourões e núcleo dos familiares maternos. No início dos anos de 1950 a família se transfere para a cidade de Crateús, onde Teoberto Landim e os irmãos foram matriculados no Instituto Santa Inês, escola de Ensino Fundamental, dirigida pela legendária professora Francisca de Araújo Rosa, respeitada educadora nos tempos da palmatória. Ficou apenas dois anos em Crateús, sendo logo encaminhado por seu padrinho, Pe. Francisco Soares Leitão, vigário de Nova Russas, para o Seminário Diocesano São José, de Sobral, com bolsa de estudo doada pela Diocese de Niterói, do Rio de Janeiro.

No Seminário interessou-se pelos estudos clássicos. Cinco anos depois descobriu que não tinha vocação para o sacerdócio, e, contrariando a vontade dos pais, deixou a batina em 8 de dezembro de 1960. Como os estudos feitos no Seminário não eram equivalentes aos dos colégios leigos, matriculou-se no Colégio Estadual Lyceu do Ceará depois de exames de adaptação. Concluiu o Ensino Médio em 1963 e no ano seguinte fez os preparatórios, ingressando em 1965 no Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará. Licenciou-se em Letras Vernáculas e respectivas literaturas em 1968, período crítico da ditadura, que não permitiu a colação de grau coletiva, tendo esta sido feita na própria secretaria da Faculdade.  Desde 1965 Teoberto Landim exerce o magistério, lecionando em vários colégios de Fortaleza, entre os quais o Colégio Arminda de Araújo, onde começou, e nos Colégios, Santo Inácio, Santa Cecília, Júlia Jorge, Imaculada Conceição. Além de professor foi diretor dos colégios Demócrito Rocha e João Pontes, ambos da CNEC, e do Curso Equipe – pré-vestibular.

Ingressou no magistério superior como professor de Literatura Brasileira do Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará em março de 1977, e, em abril de 1995, fez concurso para a classe de Professor Titular de Literatura Brasileira da mesma Universidade, onde permaneceu até 2013, aposentado pela compulsória.

Em 1980 Teoberto Landim foi cursar o mestrado em Letras na PUC/RJ, concluindo em junho de 1983, e logo em seguida ingressa no Curso de doutorado em Letras na mesma Instituição. Concluídos os créditos, ganhou bolsa do DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico) da Alemanha onde deu continuidade aos seus estudos na Universidade de Colônia, concluindo sua tese de doutorado e defendendo-a em 1989. A partir de então, suas relações com a Universidade de Colônia lhe valeram vários convites para retornar, ora como Professor Visitante, ministrando curso de literatura e cultura brasileira, ora como Professor Pesquisador, com a colaboração do Professor Doutor Helmut Feldmann, e, atualmente, com o Professor Doutor Claudius Armsbruster, diretor do Instituto de Estudos Luso-Brasileiro, daquela Universidade.

No setor administrativo da UFC, Teoberto Landim foi, por várias vezes, chefe do Departamento de Literatura e Coordenador do Curso de Mestrado em Letras, onde orientou muitas dissertações de mestrado. Foi também Diretor do Centro de Letras e Artes da UVA, em Sobral, por quatro anos.

Atualmente, aposentado, se dedica à pesquisa acadêmica, o que lhe tem rendido muitas publicações: Conversa fiada(contos) – 1983; Tocando em miúdos(ensaios) – 1984; Busca (romance) – 1985;  Literatura sem fronteiras(ensaios)  – 1990; Seca: a estação do inferno(ensaios) – 1992;  Colheita tropical(ensaios) – 2000; A próxima estação (romance)  – 2002; Escritos do cotidiano(ensaios) – 2003; Ideia, pra que te quero(ensaios) – 2004; Seca: a estação do inferno – 2a. ed.(ensaios) – 2005, além de artigos publicados em jornais e revistas especializados. Em 2009 publicou seu livro de poesia: As noites acumuladas dos meus dias, e em 2014 publicou seu segundo livro de poesia, Agreste Avena. Em 1990, Teoberto Landim foi eleito membro da Academia Cearense de Letras, titular da cadeira nº 37, cujo patrono é Tomás Lopes.

Em 2010 foi nomeado pelo Governador Cid Gomes Conselheiro do Conselho Estadual de Educação onde ocupa a função de Presidente da Câmara de Educação Básica.

UM DESTINO MAL TRAÇADO.

Era uma noite de dezembro de 1955. Meu pai chegou de viagem, vinha de Nova Russas, cidade vizinha, sem avisar. Trazia no semblante uma alegria bem diferente de outras oportunidades preocupantes. Ninguém na Estação para recebê-lo, apenas o capataz carregando sua maleta. Até mesmo minha mãe se surpreendeu com sua chegada fora de época. Eu e meus irmãos ficamos na expectativa do que deveria ter acontecido. Revimos nossas travessuras com medo de castigo…  Mas não, logo minha mãe serviu o jantar e sem muita delonga, ele me olhou firme e disse: você vai para o seminário de Sobral, no próximo ano. E completou: seu padrinho arranjou uma bolsa de estudo com a Diocese de Niterói, do Rio de Janeiro. Na próxima semana você vai comigo para Nova Russas. O Antônio seminarista vai preparar vocês para o exame de admissão, em fevereiro. Este vocês… éramos cinco candidatos, José Arteiro e Luiz Torres (o Mimoso), ambos de Ararendá; Cicero Matos e Erivaldo Pedrosa (de Nova Russas) e eu, um fora do lugar. Quando nos encontramos pela primeira vez nas aulas, vi em suas caras tudo, menos futuros padres. Fizemos os exames e todos ficamos no Preliminar, que correspondia ao quinto ano primário, na linguagem de hoje, o 5º ano do Ensino Fundamental. 

O ritual de vestimenta da batina foi muito emocionante. O canto entoado pelas vozes da Scola Cantorum, e a harmonia que despertava sentimentos celestiais saiam das mãos mágicas do João Bosco, ora das do Jairo Linhares, parecia que estávamos no céu. Depois foi que me toquei que, com pensamentos não tão angelicais, não poderia eu estar no céu… estávamos mesmo na Betânia. Mas os olhos fulminantes da menina Núbia, irmã do Antônio seminarista, me perturbaram por muito tempo, foi meu primeiro alumbramento e a certeza de que minha vida no seminário era por tempo determinado. Engraçado, nunca falamos de amor um para o outro, apenas nos olhávamos. Mas tudo passou tão rápido que passei a aceitar que a distância e o tempo são agentes destruidores de sentimentos como esses.

No velho e saudoso casarão da Betânia, vivi antagonismos: ora momentos hilariantes, ora momentos de muita seriedade. Um desses momentos engraçados vivi nas aulas de Geografia, o professor era o Pe. Marconi Montezuma que sempre chegava atrasado. Mas quando chegava à sala parecia que dava aula brincando. Um dia no primeiro ano ginasial, ele mandou que todos abríssemos o atlas geográfico… e começou a falar das capitais dos estados brasileiros; aprendíamos o nome e aprendíamos a localizar no mapa. Um certo momento, ele percebeu que o Mimoso (Luiz Torres) estava cochilando… o padre professor saiu do sério… jogou um pedaço de giz nele, se lastimou de ser professor, e, ajoelhado orou: Senhor, fazei desse desgraçado um professor. Talvez que com medo de ser padre e/ou professor, o Mimoso só ficou um ano no seminário.

              Certa vez alguém no seminário descobriu o gosto do padre professor de Francês  por histórias em quadrinhos, que aliás éramos proibidos de ler. O colega Antônio dos Santos, na época das provas, conseguia, não sei por que meios, essas tais revistas, e as distribuía pelas janelas da sala de aula. Depois que o professor passava a prova e que se deparava com as revistinhas, se esquecia do tempo e das aulas; e aí a pescaria corria solta. Olha, leitor, fique certo, tudo era sem maldade…

              Os melhores dias do seminário eram sempre a quarta-feira, sábado à tarde e domingo. Era dia de futebol. Afinal éramos jovens, praticamente era nossa melhor diversão. Vez por outra se organizava um campeonato. Num desses campeonatos me destaquei como goleiro, e meu time foi para decisão. O Wanderley era o dono do time, e me viu nervoso na véspera do jogo final. Seus familiares moravam em Sobral, julgo que por esse motivo foi fácil para ele conseguir uns comprimidos de tranquilizante. O resultado dessa história foi que acabei com minha carreira futebolística… fiquei sem ação nas traves e não via nem por onde a bola passava, tomei seis gols nesse dia.

              Foi no seminário que fiz grandes amizades. Muitas delas manifestadas quando já estávamos no mundo, aqui fora. Tinha admiração por muitos mestres. Na época, meu reitor era o Padre Austregésilo de Mesquita Filho, depois tornou-se bispo. Era uma figura admirável, apesar de me pegar no pé porque sempre fui péssimo aluno de matemática. Quando sai do seminário, uns seis meses depois, o encontrei no trem, eu ia para Crateús e ele para Nova Russas, ia ajudar nos festejos da padroeira. Ao cumprimentá-lo, ele me deu um abraço, e foi logo indagando: e a matemática? E eu respondi: o pouco que aprendi com o senhor foi o bastante para passar num concurso público federal (Correios). Ele foi responsável também por eu ter passado cinco anos no seminário; porque pelo gosto de meu bem mal diretor espiritual eu teria saído no mesmo ano. Ele, diretor espiritual, se escandalizava quando eu lhe dizia que não conseguia esquecer a menina Núbia, irmã do Antônio seminarista.

              Ainda ouço o ranger dos pneus da bicicleta do Pe. Osvaldo Chaves, nos longos corredores do casarão da Betânia, ele foi o melhor, o mais culto de todos. Com ele aprendi a ler e interpretar, aprendi a gramática, aprendi a ser o professor que fui até bem pouco tempo. Devo a ele meu interesse pelas letras. Seus ensinamentos foram importantes na minha vida acadêmica e profissional. Tornei-me professor de literatura, mas confesso, não cheguei aos seus pés.

              Estudei latim brincando de ler Pinóquio, com o Pe. Sadoc recém-chegado de Roma. Confesso que a metodologia falhou porque faltou interação com a gramática latina. Tanto que, no segundo ano, nos faltou conhecimento de todas as declinações. Falha superada com o Pe. Arnóbio, com sua paciência e bondade nos preparou para lermos Virgílio no primeiro semestre do quarto ano com o Pe. Edmilson Cruz. Não sei por que razão, no segundo semestre o Pe. Edmilson sai, e entra em sala para estudarmos Cícero e suas Catilinária um padre professor com um “burro” debaixo do braço. Para nós alunos, usar o “burro” era pecado mortal, mas para o professor que entrava era sua salvação. Por questão de ética deixo em segredo o nome dele.

              O seminário foi um espaço privilegiado para o meu desenvolvimento, uma usina de sentidos, sentidos de vida (ética), e de convivência (moral), e não passei por outra instituição social de que possa dizer o mesmo. Foi lá que aprendi que a transmissão dos valores culturais não se dá automaticamente, mas depende do modo de interação com o contexto. Desse modo, minha passagem pelo seminário foi profundamente marcada pela tarefa nem sempre fácil que é desenvolver em cada um, que lá está enclausurado, a sua autoestima, ensinar a se relacionar, a resolver seus conflitos particulares e o autocontrole de suas decisões e emoções.

              Entendi depois de muitos anos que o seminário como espaço que privilegiava a dimensão afetiva, contemplando a autoestima e o reconhecimento das potencialidades de cada um, colaborava para o desenvolvimento pleno de cada seminarista, quer ele seguisse a vida sacerdotal, quer fosse um cidadão comum.

              Portanto, a afetividade influencia positiva ou negativamente no processo de formação. Ela atua como fio condutor, nas palavras de Piaget como “elemento energético”, capaz de estimular o individuo a buscar o novo. Com fundamento na análise piagetiana sobre as relações entre afeto e cognição, compreendi que a afetividade não modifica as estruturas cognitivas, mas atua como fornecedora do sucesso ou do atraso. Afetividade é, assim, energia, impulso, motivação das condutas, é o que dirige o sujeito para um e não para outro objeto, é o que faz com que o sujeito escolha e valorize uma e não outra ação.

              Como disse antes, ingressei no seminário sem saber o que queria. Entendia o que meus pais queriam: um filho padre. Minha tenra idade não me permitia dizer o que eu queria, ou o que não queria… predominava a vontade dos pais. Minha aprendizagem no seminário me levou aos poucos a uma preparação para a saída honrosa, pois a conduta humana, qualquer que seja ela, possui dois elementos fundamentais: um estrutural (dado pela inteligência), que fornece os meios (cada vez mais complexos) que permitem solucionar os problemas que o mundo apresenta; e também o elemento energético (dado pela afetividade), que impulsiona o sujeito em direção a uma solução, a um objeto, valorizando mais, ou menos, suas ações, físicas e mentais, inserindo-as numa hierarquia valorativa.

              Foi nessa dimensão que me preparei para sair do seminário. Não sei se a conscientização emergia do todo ou da parte como ponto de partida, mas sei que o primeiro momento de minha conscientização foi o da dialética entre o vivido e o pensado no seminário e a ideologia nele contida, transmitida, sem crítica, sem tradição. Assim, no dia oito de dezembro de 1960, enquanto os colegas saíam em procissão no dia de Nossa Senhora, eu os acompanhava com lágrimas transbordando e inundando-me o rosto… eu já era um cidadão comum em busca de outros sonhos.

Texto extraído do livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – AD VITAM – 65 DECLARAÇÕES DE AMOR, de Leunam Gomes e Aguiar Moura – Edições UVA, 2015 – Sobral – Ceará

Paremos para pensar!

Autora: ANINHA MARTINS

Como alguém que nunca quis o mal do outro, pôde ser crucificado, torturado?

Como alguém que nunca fez mal para as pessoas, foi tão odiado, a ponto de ser levado ao ápice do sofrimento?

Como as pessoas podem julgar sem conhecer a verdade, apenas por suposições?

Como as pessoas têm o hábito de comparar, de achar que todos são iguais, mesmo sabendo que cada história é singular, que cada ser é único?

Pensemos!

Pensemos nas nossas atitudes diárias! Pensemos e averiguemos, sempre antes de agir!

Pensemos na dor do outro e daqueles que estão ao seu lado!

As nossas ações não atingem somente o alvo, elas respingam em muitos que estão ao seu redor!

Pensemos o quanto, muitas vezes, somos injustos!

Lembremos sempre o quanto o nosso Salvador foi julgado de forma errônea. Por alguns, por maldade e por outros, pelo simples fato de se deixarem levar pelas opiniões dos outros, sem   pararem para pensar e tirarem suas próprias conclusões…

Aqueles que veem o mal em tudo, que querem o mal do seu semelhante, geralmente, são pessoas que possuem uma grande capacidade de liderança e, por isso, “envenenam” os mais ingênuos.

Paremos para refletir!

ANINHA MARTINS, de Ipu, Ceará, Professora, Poetisa e Escritora

VIVÊNCIA – autoria: Aninha Martins

Aninha Martins

Amanhece…

Nem percebemos o sol

Em sua magnitude

É dado início a corrida

Olhamos o relógio

Para contar os minutos

E começamos correr

Até nos perdermos

Na cronometragem do tempo

Observamos as horas frias

O pulsar técnico

Do ponteiro veloz

Avançando em segundos

Sobrevoando os números

E o tic tac não pára

Obedecendo padrões

Cobrados, impostos

Por todos e por nós.

Não reparamos o essencial,

As metáforas da vida

Para seguirmos planos

Metas frígidas.

Sem parar pra sentir

Viver profundamente,

Olhar a singularidade,

Ver o sentido das coisas

A beleza do simples.

Preferimos existir

Superficialmente,

Viver as versões da vida

Que nos são apresentadas

Por outrem.

Deixando de mergulhar

No nosso interior

Atentar para as batidas,

A sonoridade do coração

Optamos  ficar

Na superfície da existência

Sem dor e sem cor.

ANINHA MARTINS, de Ipu – Escritora, Poetisa, Professora

Manifesto: Pacto pela Vida no Brasil.

Cidadãos brasileiros, mulheres e homens de boa-vontade, mais uma vez, conclamamos a todos: 

O Brasil vive uma grave crise – sanitária, econômica, social e política — exigindo de todos, especialmente de governantes e representantes do povo, o exercício de uma cidadania guiada pelos princípios da solidariedade e da dignidade humana, assentada no diálogo maduro, corresponsável, na busca de soluções conjuntas para o bem comum, particularmente dos mais pobres e vulneráveis. O momento que estamos enfrentando clama pela união de toda a sociedade brasileira, para a qual nos dirigimos aqui. O desafio é imenso: a humanidade está sendo colocada à prova. A vida humana está em risco.

A pandemia do novo coronavírus se espalha pelo Brasil exigindo a disciplina do isolamento social, com a superação de medos e incertezas. O isolamento se impõe como único meio de desacelerar a transmissão do vírus e seu contágio, preservando a capacidade de ação dos sistemas de saúde e dando tempo para a implementação de políticas públicas de proteção social. Devemos, pois, repudiar discursos que desacreditem a eficácia dessa estratégia, colocando em risco a saúde e sobrevivência do povo brasileiro. Em contrapartida, devemos apoiar e seguir as orientações dos organismos nacionais de saúde, como o Ministério da Saúde, e dos internacionais, a começar pela Organização Mundial de Saúde – OMS. 

Os países democráticos atingidos pelo COVID-19 estão construindo agendas e políticas para combatê-lo de maneira própria, segundo suas características, mas, todos, sem exceção, na colaboração estreita entre sociedade civil e classe política, entre agentes econômicos, pesquisadores e empreendedores, convencidos de que a conjugação de crise epidemiológica e crise econômica assume tal magnitude, que só um amplo diálogo pode levar à sua resolução. É hora de entrar em cena no Brasil o coro dos lúcidos,

fazendo valer a opção por escolhas científicas, políticas e modelos sociais que coloquem o mundo e a nossa sociedade em um tempo, de fato, novo.

Nossa sociedade civil espera, e tem o direito de exigir, que o Governo Federal seja promotor desse diálogo, presidindo o processo de grandes e urgentes mudanças em harmonia com os poderes da República, ultrapassando a insensatez das provocações e dos personalismos, para se ater aos princípios e aos valores sacramentados na Constituição de 1988. Cabe lembrar que a árdua tarefa de combate à pandemia é dever de todos, com a participação de todos — no caso do Governo Federal, em articulada cooperação com os governos dos Estados e Municípios e em conexão estreita com as nossas instituições. 

A hora é grave e clama por liderança ética, arrojada, humanística, que ecoe um pacto firmado por toda a sociedade, como compromisso e bússola para a superação da crise atual. Como em outras pandemias, sabemos que a atual só agravará o quadro de exclusão social no Brasil. Associada às precárias condições de saneamento, moradia, renda e acesso a serviços públicos, a histórica desigualdade em nosso país torna a pandemia do novo coronavírus ainda mais cruel para brasileiros submetidos a privações. Por isso, hoje nos unimos para conclamar que todos os esforços, públicos e privados, sejam envidados para que ninguém seja deixado para trás nesta difícil travessia. 

Não é justo jogar o ônus da imensa crise nos ombros dos mais pobres e dos trabalhadores. O princípio da dignidade humana impõe a todos e, sobretudo, ao Estado, o dever de dar absoluta prioridade às populações de rua, aos moradores de comunidades carentes, aos idosos, aos povos indígenas, à população prisional e aos demais grupos em situação de vulnerabilidade. Acrescente-se ao princípio da dignidade humana, o princípio da solidariedade – só assim iremos na direção de uma sociedade mais justa, sustentável e fraterna. 

É fundamental que o Estado Brasileiro adote políticas claras para garantir a saúde do povo, bem como a saúde de uma economia que se volte para o desenvolvimento integral, preservando emprego, renda e trabalho. Em tempos de calamidade pública, tornam-se inadiáveis a atualização e ampliação do Bolsa Família; a rápida distribuição dos benefícios da Renda Básica Emergencial, já aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo Executivo, bem como a sua extensão pelo tempo que for necessário para a superação dos riscos de saúde e sobrevivência da população mais pobre;  a absorção de parte dos salários do setor produtivo pelo Estado;  a ampliação de estímulos fiscais para doações filantrópicas ou assistenciais; a criação do imposto sobre grandes fortunas, previsto na Constituição Federal e em análise no Congresso Nacional; a liberação antecipada dos precatórios; a capitalização de pequenas e médias empresas;

o estímulo à inovação; o remanejamento de verbas públicas para a saúde e o controle epidemiológico; o aporte de recursos emergenciais para o setor de ciência & tecnologia no enfrentamento da pandemia; e o incremento geral da economia. São um conjunto de soluções assertivas para salvaguardar a vida, sem paralisar a economia.

Ressalte-se aqui a importância do Sistema Único de Saúde – SUS, mais uma vez confirmada, com seus milhares de agentes arriscando as próprias vidas na linha de frente do combate à pandemia. É necessário e inadiável um aumento significativo do orçamento para o setor: o SUS é o instrumento que temos para garantir acesso universal a ações e serviços para recuperação, proteção e promoção da saúde.

Em face da expansão da pandemia e de suas consequências, é imperioso que a condução da coisa pública seja pautada pela mais absoluta transparência, apoiada na melhor ciência e condicionada pelos princípios fundamentais da dignidade humana e da proteção da vida.  Reconhecemos que a saúde das pessoas e a capacidade produtiva do país são fundamentais para o bem-estar de todos. Mas propugnamos, uma vez mais, a primazia do trabalho sobre o capital, do humano sobre o financeiro, da solidariedade sobre a competição.

É urgente a formação deste Pacto pela Vida e pelo Brasil. Que ele seja abraçado por toda a sociedade brasileira em sua diversidade, sua criatividade e sua potência vital. E que ele fortaleça a nossa democracia, mantendo-nos irredutivelmente unidos. Não deixaremos que nos roubem a esperança de um futuro melhor. 

Dia Mundial da Saúde, 7 de abril de 2020

Signatários:

Dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB

Felipe Santa Cruz, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB

José Carlos Dias, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns – Comissão Arns

Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências – ABC

Paulo Jeronimo de Sousa, presidente da Associação Brasileira de Imprensa – ABI

Ildeu de Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC

Literatura Cearense: “Betanista, Graças a Deus” de José Célio Fonteles, na Betânia, de 1955 a 1960)

A casa da infância. Não é assim que os analistas pedem para descrever logo nas primeiras entrevistas, cônscios da riqueza de pistas explicativas destes edifícios para o caráter do analisando? Além do meu primeiro e virginal abrigo (não tão virginal assim, helàsl) lá na friorenta Ibiapaba, dos dez aos 22 anos, só tive casas conventuais para chamar de meu lar. Por obra e graça de outros ou, como querem os lacanianos, do Grande Outro.

Era infância, portanto, ainda a revolta adolescência, mais adiante. Direi apenas que era uma casa com sótão e porão. E a pletora de relembranças advindas destes dois recantos. O mais dependerá de minha timudês (assim mesmo com u). Tão tímida e muda que, já na primeira noite que lá passei, fiz xixi na cama, com cerimônia de perguntar onde era. Que sono (e sonhos), tumultuados os daquela noite inaugural, pontuados, volta e meia, pela urgência fisiológica. E pelos restos diurnos de que também se compõem os sonhos: A entrega da petição para ingressar no seminário. Em que arquivo dormirá hoje este papel solenemente selado na Cúria e despachado pelo Senhor Bispo durante o café posprandial? Literalmente numa corte de conde onde os próprios padres serviam o café? Tudo eram novidades para o menino velho matuto.

    Digamos que são cenas do porão das lembranças, local soturno onde eram deixadas malas e canastras e só revisitado a cada fim de semestre para retirá-las a caminho das férias. Neste recôndito cheguei a ambientar um conto intitulado A república dos meninos de preto, inédito, ainda bem. Recorri a efemérides do final da década de 50 e constatei de relevante a sagração de bispo de meu padrinho Dom Coutinho, a entrevista com D. Adelmo Machado Cavalcante, visitador dos seminários, que aboliu a camisola de dormir.  E o jubileu de Dom José, presentes o cardeal do Rio e o Núncio, aquele mesmo que recusou a avionetta do Pe. Palhano. Destoando das maravilhas sulferinas, deparei com a modesta batina de Dom Lustosa, cobrando a este primeiranista: “ Daqui a 60 anos espero convite para o teu jubileu”.

No meio do caminho de nossas idas e vindas (sempre em forma) tinha uma capela e seu mistério. O do Preciosíssimo Sangue. Como José em Nazaré, tínhamos o mistério acontecendo dentro de casa, só que, no meu caso, os limites não deixaram dele apropriar-me a contento. E em se tratando de uma Betânia, haveria também os mistérios de Marta, os agridoces mistérios do cotidiano de nossa rotina despojada. Onde andará dona Maria Minerva, a lavadeira; atendi algumas vezes no consultório a familiares do Felipe, o marceneiro, ofícios ambos muito bem cotados na Bíblia. Na supervisão das atividades de apoio, as irmãs Hermenhilde e Tarcisia e sua coorte de postulantes (inesquecíveis seus brötchen de leite no café da manhã).

Meu irmão Gonzaga que também na Betânia concluiu o sexto ano relembra comigo a solidão claustral ali vigente, sobretudo nos crepúsculos, aureolados a poente pelos alcantis da Serra da Meruoca e pelos da Pedra do Barriga, a nordeste. A caixa d’água (imponente reserva devida à operosidade do ecônomo, Pe. Arnóbio) era o refúgio para estes momentos de incerteza.

“O dia começa às cinco horas com o primeiro toque da sineta. Todos se levantam, arrumam suas camas e recitam, sob a regência de um prefeito, o Te Deum, um canto de louvor a Deus pela graça de ter alcançado aquele novo dia. Terminada essa oração, todos descem pela rouparia, em fila, batina por cima da camisola. Ali, tiram a batina, trocam a camisola pelo calção e a camiseta e fazem vinte minutos de exercício físico no pátio. Seguem, então, para o banho (as portas dos banheiros são serradas pela metade para que as pernas dos alunos possam ser vistas pelo disciplinário). Depois, retornam à rouparia, vestem calça e a camisa e, por cima, a batina. Penteados e calçados, entram na fila e se dirigem à capela para a missa. À missa, segue-se o café, antecedido de uma leitura. Nova fila, e todos se dirigem para as salas de aula. A manhã se completa com um recreio de meia hora, ás nove e meia; nova bateria de aulas, e o almoço às onze e meia. Na hora do almoço, acontecem os avisos e a leitura do martirológio romano, sobre a vida dos santos mártires.

A tarde tem menos aulas e mais calor (o calor de Sobral!).

Todos se dedicam ao estudo das matérias e à realização das tarefas escolares. Divide-se a tarde em duas partes intercaladas de um recreio de meia hora para a merenda. No primeiro momento, as aulas; no segundo, os chamados silêncios, as horas de recolhimento para estudo. São cumpridos nas salas de aula e rigorosamente fiscalizados pelos bedéis. Pelas cinco horas, há um tempo livre, aproveitado para a prática de esportes ou para leitura na biblioteca ou convescote.

 A noite começa com um terço na hora do Angelus. Segue-se o jantar. Um novo recreio longo. Novo silencio, nova oração na capela que termina com o canto a Nossa Senhora: Virgo Maria / Immaculata/ ora pro nobis/ora pro nobis. O canto é repetido três vezes. Novo retorno à rouparia para vestir a camisola, fila para o dormitório. Ali, um novo canto em latim, o Magnificat, uma das belas páginas da Bíblia, a comunicação de Maria à sua prima Isabel de que o Senhor a escolhera para ser a mãe de Jesus. Quando os seminaristas rezavam este poema queriam agradecer a Deus o privilégio de terem sido distinguidos pela vocação sacerdotal. E, ufa! Finalmente, o sono”. Achegas recolhidas do colega Juarez Leitão, na biografia de seu tio padre.

  Em situação vexatória, acho-me, pois, no canto da tela onde escrevo, já leio o aviso Trojan horse detected, alusivo talvez ao plágio retro.  Parecido com um doidinho que aparecia todo ano em setembros como este nas moagens do seminário ferial da Meruoca; nós o púnhamos para dançar no meio da roda, e ele pedia, num sorriso imbecil: – Peraí, deixa eu primeiro pegar o pulume (prumo, aplomb).

Acho ter merecido a reprimenda de um colega, quando dei a impressão de nossos quase 20 reencontros: -Somos todos masoquistas, por gostarmos de mexer com navalhas na própria carne. – . Em um deles, com sua modéstia peculiar, pediu-me meu ex-mestre de química um explicativo para a depressão. Repassei-lhe o vigente, a questão da depleção dos neurotransmissores.  Sua mente de asceta objeta: – Pode ser; mas o Getsêmani retrata-me outro modo de encará-la.

Em agosto de 66, efetuei meu desligamento, tomando ciência na ocasião da eleição para bispo de meu professor de química, padre Manuel Edmilson, uma referência para me tornar médico. A outra, o padre Zé Linhares, mestre de história natural. Inclinação para as letras? A primeira de que me lembro, o oficio de bibliotecário (conquistado no voto) da Cruzada Pio Literária São Tarcísio, à época sob a orientação do Padre Osvaldo, acho que li toda a sua coleção das edições salesianas, compostas em formato de bolso na gráfica do colégio Santa Rosa em Niterói. As missões dos filhos de Dom Bosco entre os índios bororos, em Mato Grosso. Quase palmilhei as mesmas trilhas do casal Claude e Dinah Levi-Strauss, em “Tristes trópicos”. Visões bem divergentes, a dos missionários e a da corrente filosófica do estruturalismo.

Na primeira investida heteroafetiva, descamuflei minhas reais intenções: – Epouse moi, mon enfant. E ela: – Será válido esperar? – Terminou o Concílio Vaticano II, “desfazendo ilusões, matando enganos”. Nenhuma flexibilização à vista na disciplina do celibato. Em 15 de agosto de 66, tamquam abortivus, comuniquei a Dom Valfrido meu ingresso no rol dos “chamados e não escolhidos”. Não resistira, apesar da sinceridade, à prova de fogo do “estágio probatório” e “cacei” entre os registros o tal papel admissional de meus pesadelos de novato. Debalde, e nova surpresa: um atestado in fide parochi sobre o seminarista que, em férias, manifestava-se “livre com seculares, maxime com senhorinhas”. Uma delas virou mãe dos meus 4 filhos.

Forçosamente homoafeições haveriam de medrar ali, ante este enfoque ginófobo, no salve-se quem puder das explosões hormonais, as rotuladas “amizades particulares”.

Ou como me advertiu um antigo porteiro: – Célio, você parece que anda meio relcalcado com o seminário. Isso aqui agora é uma falcudade, Célio.

Encerro estas desconexas lembranças com um novembro de inauguração do gabinete musical Bethoven. Oradores o pai do padre Manfredo, dr. Ribeiro Ramos e o Reitor Austregésilo, um desentoado confesso, empenhando-se ao máximo para este expressivo aporte cultural. Se eu tivesse cuidado melhor de minha educação musical, e, por extensão, artística e sentimental, teria dado conta talvez da opção voluntária pelo celibato e das outras dificuldades que antolhavam ao sacerdócio. O tímido mutismo do início desta crônica terminaria implicando os sermões a pregar. E a limitada disponibilidade para a escuta, tão indispensável no confessionário. Ambas, disposições internas de temperamento, não atreladas à fisiologia, como a que teve de superar o patrono Ludwig Bethoven no auge de sua criatividade musical. Dom misterioso, o da vocação: apenas 17%, dos que entram, saem pela porta estreita da ordenação. Sim, é verdade o batido chavão: A gente sai do seminário, mas o seminário não sai da gente.

José Célio Fonteles, de São Benedito-Ce. – Betanista, Médico e Jornalista. Este texto está no livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – AD VITAM – 65 DECLARAÇÕES DE AMOR, de Leunam Gomes e Aguiar Moura

Maranhão: Governo confirma remoção de quilombolas para depois da pandemia • por Luiz Pedro em 3 de abril de 2020

O brigadeiro José Vagner Vital, vice-presidente da Comissão de Coordenação e Implantação de Sistemas Espaciais da Força Aérea Brasileira, assegurou ao Ministério Público Federal que o governo não tomará qualquer medida concreta para a remoção de comunidades quilombolas de Alcântara, no Maranhão, enquanto perdurar a epidemia de coronavírus.

O compromisso foi firmado em teleconferência da qual participaram o coordenador da Câmara de Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais do MPF, Antônio Bigonha, o subprocurador da República, Mario Bonsaglia, o procurador-geral da República no Maranhão, Hilton Melo, além do brigadeiro Vital.

A teleconferência ocorreu um dia após o Ministério Público Federal ter encaminhado recomendação ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República para que se abstivesse de proceder a remoção de populações quilombolas de Alcântara, além de lembrar a excepcionalidade do momento por que passa o País em função da crise sanitária do COVID-19.

Bonsaglia considerou tranquilizadora a decisão, mas lembrou ser imprescindível a consulta prévia às comunidades que serão atingidas, como exige a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, da qual o Brasil é signatário.

Ontem (02), o governo do Maranhão já havia encaminhado Nota Técnica ao GSI e exigido a “imediata anulação “ da Resolução n° 11 do Comitê de Desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro, que prevê a remoção de 792 famílias de quilombolas da área de expansão do Centro Espacial de Alcântara. (Com informações da Secretaria de Comunicação Social da Procuradoria-geral da República).

Publicado em BRASIL POPULAR, Texto do Jornalista Luis Pedro

Imprevisibilidade – autoria de Aninha Martins

De repente, me vejo

Sem me enxergar

Caminhando na escuridão

Com passos firmes,

Cheios de cautela

Pavorosa,

Sigo em frente

Sem saber

Do futuro

Mesmo daquele tão próximo!

Continuo andando

Carregando pesos,

Da dúvida e incerteza,

Dos pensamentos pavorosos

Mas no coração

Uma leve esperança

Que a fé me traz

Tranquilizante da alma

Porém, nada consigo visualizar

E, na incerteza

Entro na tempestade

De pensamentos confusos…

Alguém me acalma,

Segura minha mão

Sem ver Seu rosto

Sinto apenas, Sua  mão

Que me guia

Por caminho reto

Mesmo na escuridão.

Percebo que há pessoas

Andando comigo

Perdidas na imensidão

Tão distantes e frias

De poucas,

Escuto a voz

Dizendo que ali, estão.

Continuo a caminhada

Sem ver uma luz,

Uma chama, sequer

Vou ter que no escuro,

Sem saber até quando

Caminhar.
Aninha Martins

ANINHA MARTINS, de Ipu. Professora, Poetisa e Escritora

Alguns de seus livros