Pe. Ibiapina como um dos maiores deste país ao assumir o trabalho de reeducar o povo do Sertão.

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Pensadores que sonharam com um Brasil melhor (XV)

Depois de falar sobre os sonhos de Antônio Conselheiro (1830) e do Pe. Cícero (1844), achei por bem falar de outro pensador, também da 1ª metade do mesmo século XIX, o Pe. Ibiapina (1806), que muito influenciou ou inspirou o jovem Cícero Romão em sua escolha pela vocação sacerdotal.

            Igualmente, Antônio Conselheiro conseguiu construir Canudos, cidade autossustentável, onde ninguém passava necessidade, numa época em que muitos morriam de fome e, com a maneira socializada de viver e trabalhar, foram incompreendidos pelos poderes político e religioso, destruídos e mortos.

            O Pe. Ibiapina deu sua grande colaboração não só na religião, mas também na saúde, na educação, na arquitetura do Nordeste. A ele se deve a construção de inumeráveis casas de caridade, igrejas, locais de atendimento para órfãos, hospitais, capelas, cemitérios, reservatórios de água nas casas, o ensinamento de novas técnicas agrícolas, e a defesa dos direitos dos trabalhadores rurais, duramente explorados pelos patrões sem escrúpulos.

            Dentro desta minha sequência de sonhadores com um Brasil melhor vejo o Pe. Ibiapina como um dos maiores deste país ao assumir o trabalho de reeducar o povo do Sertão, completamente abandonado pelos governantes. E o que é pior: mais de 200 anos depois, o abandono continua. Àquela época, ele já unia a fé à vida, a oração à ação, a teoria à prática, bem antes do Concílio Ecumênico e dos estudos da Teologia da Libertação, de quem é “precursor”.

            Nasceu em Sobral, zona norte do Ceará, aos 05 de agosto de 1806, onde viveu até os 10 anos, quando seu pai, Francisco Miguel Pereira, foi transferido para trabalhar no Icó, centro sul do estado. Por lá, na cidade de Jardim, fez seu curso de humanidades, aprofundando-se na língua latina, habilitando-se a ingressar no Seminário de Olinda, em Pernambuco, com 17 anos, em 1823. Dois anos depois, seguidamente lhe chegaram notícias da morte de sua mãe, Dona Tereza Maria de Jesus, do assassinato de seu irmão mais velho e do fuzilamento de seu pai. Ibiapina teve que parar seus estudos no Seminário, voltar pra casa e cuidar de sua família, sobretudo de duas irmãs menores, que não tinham como sobreviver.

            Resolvida a dificuldade e encaminhada a solução, em 1832, com 26 anos, retornou a Pernambuco, não mais para o Seminário, mas para a Faculdade de Direito de Olinda, a mais antiga do Brasil, tornando-se depois, chefe de polícia e, mais tarde, Juiz de Direito em Quixeramobim, cidade do sertão cearense. Apesar da brilhante carreira, do sucesso no magistério e na Justiça, na política e em tudo o que fazia, se sentia muito insatisfeito. Resolveu desligar-se de tudo e fazer como Jesus: ir para um lugar deserto, não por 40 dias, mas, pelo menos, por 03 anos.

            Como já era bastante adulto e cheio de experiência, com 42 anos se escondeu numa pequena casa em Caxangá, na periferia do Recife, dedicando-se aos livros, à meditação, à oração, à frequência aos sacramentos e à vivencia das virtudes da humildade e da pobreza evangélicas até aflorar-lhe a verdadeira vocação: aquele chamado interior que poucos entendem. Aos 47 anos, Ibiapina estava pronto para o Sacerdócio, tornando-se o Padre José Antônio Pereira Ibiapina em Julho de 1853, com a celebração de sua 1ª Missa no dia seguinte: 26 de julho. Por causa da promulgação do Dogma da Imaculada Conceição, por Pio IX, em 1854, ele retirou o seu sobrenome de Pereira e colocou Maria, numa homenagem à Mãe de Deus, passando-se a assinar: Padre José Antônio Maria Ibiapina.

            Antes tarde do que nunca, Padre Mestre! Você tinha enveredado, com muito sucesso, pelos caminhos do Direito, da Justiça, do Magistério, da Política por onde quer que tenha andado. Foi-se bem em tudo, mas estava insatisfeito. Seus ideais eram outros: caminhar pelo Nordeste. Foram-se mais de 600.000 km a pé, só igualados ao que andaram: S, Paulo, Sto. Antônio e S. Francisco Xavier. Seu trabalho missionário se estendeu pelos estados do Piauí, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco. Sempre de batina, a pé ou a cavalo andava e pregava, aconselhava e levava conforto ao povo sertanejo.

            Você organizou missões, construiu capelas, igrejas, açudes, cacimbas, poços, cemitérios, hospitais, muitas casas de caridade para moças órfãs que recebiam educação moral e religiosa, aprendiam a ler, escrever e trabalhos domésticos, além de terem assistência à saúde. Você fez uma ligação enorme entre a Igreja e o povo pobre do nordeste, construiu uma significativa e respeitada obra missionária, partilhando água, alimento e abrigo para doentes, mendigos, retirantes, levando sempre uma palavra de conforto aos precisados.

            Uma de suas grandes máximas espirituais era: “depois do temor a Deus, o meio mais poderoso que têm o pai e a mãe de família para conservar a família em boa moral, na obediência e ordem regular, é o trabalho constante e forte”. O Pe. Ibiapina faleceu no dia 19 de fevereiro de 1883 na Casa de Caridade Santa Fé, na Paraíba, onde foi erigida uma igrejinha, tornada, mais tarde, Santuário.  Todos os meses, no dia 19, há uma grande celebração com a presença de vários fiéis de toda a região que vão agradecer as bênçãos e pedir a intercessão do “Servo de Deus”,  Pe. Ibiapina, em suas vidas.

            Desde 1992, quando foi dada entrada na “Postulação da Causa do Pe. Ibiapina – O Apóstolo do Nordeste” que a Diocese de Guarabira, na Paraíba, começou a juntar documentos, provas, testemunhos populares, milagres ditos pelo povo, publicações da imprensa, enfim, mais de 30 anos de escritos, de gravações de pronunciamentos que deponham favoráveis à santidade do candidato. Em 13 de janeiro deste ano de 2021, em concelebração solene na Paróquia de Solânea, onde o Padre está sepultado, na Diocese de Guarabira – Paraíba, foi apresentado ao público, ali presente, essa 1ª etapa do Processo do Servo de Deus – Padre Ibiapina. Daquele dia em diante se iniciou a 2ª etapa: a da Venerabilidade do Padre Mestre. É o tempo que vai durar de estudos, em Roma, para declará-lo Beato. Tem que haver um milagre, cientificamente, provado. Para isto, a Congregação para a Causa dos Santos, composta de diferentes consultores com formações acadêmicas no campo da Historia, da Teologia e da Medicina reconhecem a venerabilidade do Servo de Deus. Só então vem a 3ª etapa: a da beatificação, com uma comprovação científica de Milagre. Ficaremos apenas a um salto da 4ª etapa: a mais séria.

A partir de então, os estudos serão mais sérios, tendo em vista a Canonização: a declaração da Santidade. O milagre que se exige agora não é provado pela ciência, como para a beatificação. É pela fé. É um desafio à ciência. Se é de fé, não se prova cientificamente. Isto feito, a Igreja o declara, solenemente, Santo.  Ficaremos aguardando, como já o estamos fazendo para outras 52 “Postulações à Canonização” de brasileiros, entre os quais: Dom Helder, Dom Expedito, Pe. Valdir, Pe. Arnóbio, Irmã Lindalva, a Jovem Benigna e tantos outros na “fila”, aguardando a caminhada dos Processos.

Espera-se que a mensagem de caridade do Padre Mestre/Ibiapina atinja o mundo inteiro e que seu modelo missionário inspire mais sacerdotes e leigos.

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