SETEMBRO DOM JOSÉ, CELEBRADO POR 17 ANOS. POR QUE PAROU?

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Série: Pensadores que sonharam com um Brasil melhor (XII)

Texto de Mons. ASSIS ROCHA

No dia 06 de dezembro fez, exatamente 20 anos que eu voltei para o meu Ceará, depois de 40 anos em Pernambuco. Vim na intenção de passar um ano sabático e, dependendo de minha readaptação com minha família, com a Diocese e com meus conterrâneos, voltaria em definitivo para cá. Sem dificuldades me readaptei, inclusive, arranjando logo um trabalho. O Professor Teodoro com outros colegas, contemporâneos nos Seminários de Sobral, Fortaleza, Olinda e Roma me convidaram a trabalhar na UVA, para fazer o que eu mais havia feito na vida: comandar o setor de Comunicação e, mais tarde, também de Articulação da Universidade. Interagi muito bem com os demais professores e tive uma boa e nova experiência. 

Por ter sido seminarista de Dom José e por ter convivido com ele de um modo muito especial, ao assumir as Pró-reitorias de Articulação e Comunicação (Pro-Art.com) logo no início do ano de 2002, tive que integrar, pela própria função, a equipe já existente do Setembro Dom José, cujo encargo aceitei, com prazer, do 3º ano a ser celebrado até o 6º ano, em 2005, quando saí da UVA. Fui convocado por Dom Fernando Saburido para ser Assessor de Comunicação da Diocese de Sobral para coordenar a Rádio Educadora e o Jornal Correio da Semana, cabendo também a mim a parceria com o Setembro Dom José, que se mantinha desde o início com uma coordenação tripartite: a UVA, a Diocese e a Prefeitura de Sobral.     

A brilhante ideia saiu da cabeça do Professor Teodoro, ao tempo em que era Reitor da Universidade Vale do Acaraú. Motivou o Prefeito de Sobral e o seu Bispo Diocesano, respectivamente, Cid Gomes e Dom Aldo Pagoto, para realizarem o intento que, em 17 anos consecutivos, aconteceu, mesmo depois que mudaram Prefeito e Bispo. Dom José havia passado, mas um outro José – o Teodoro Soares – seu fiel e grato discípulo, sustentou a memória até ir-se também ele aos 18 de agosto de 2016.

Já nos estávamos preparando para celebrar o 17º Setembro Dom José, como nos anos anteriores, com o apoio total do Prof. Teodoro. Sua partida não nos impediu de comemorar, pois, certamente, na eternidade, com o próprio Dom José, se alegraram bastante. Nós aqui, naquele ano, rememoramos os dois. Nunca esquecemos, nesses últimos 16 anos, de enumerar o Curriculum de Dom José, os inúmeros títulos universitários conquistados na Universidade Gregoriana, em Roma, inclusive o fato de “ter sido recebido em audiência pelo Papa Pio X, por ter obtido a melhor nota na famosa Universidade Pontifícia”.

            Nossa referência à Audiência Pontifícia é porque do dia 13 de Maio de 1899 ao dia 06 de Junho de 1906 D. José estudava em Roma, fazendo seus Cursos de Filosofia, Teologia, Sagrada Escritura e Direito Canônico, com os respectivos Doutorados em todos. Até 1903, o Papa era Leão XIII. Foi substituído por D. José Sarto, que escolheu o nome de Pio X. Até 1906, com o aluno D. José, ainda em Roma, embora seu pontificado tenha ido até 1914.

            Em junho de 1906 D. José foi laureado em Teologia com o mais alto conceito dado pela Universidade Gregoriana: summa cum laude. Para coroar a magnitude de sua proeza, foi recebido em audiência pelo Papa Pio X que queria parabenizar o “gênio brasileiro” que alcançara tão alto conceito ou avaliação tão excepcional naquela tradicional Universidade Pontifícia. Aquele gesto de Sua Santidade deixou em D. José uma marca especial. Foi, como que, a glória ou o coroamento de seus esforços, até então, empreendidos. D. José nunca esqueceu isso.

            Em 1914 o Papa Pio X morreu. Substituiu-o Bento XV, que logo em 1915 criou a Diocese de Sobral, nomeando D. José, com apenas 33 anos, o seu 1º Bispo. O “amigo” já se tinha ido, com 79 anos de idade, mas o sucessor não lhe desconheceu o valor. Fê-lo, tão jovem ainda, Bispo da nova Diocese.

            Sabemos sua história. Contamo-la e recordamo-la sempre, como já o fizemos inúmeras vezes: seu nascimento no dia 10 de Setembro de 1882 e a sua morte no dia 25 de Setembro de 1959. Daí o motivo do Setembro Dom José: seu nascimento e sua morte aconteceram em SETEMBRO. 

            Quarenta anos após a morte de Pio X, em 1954, o Papa era Pio XII. Ele o elevou à honra dos altares, canonizando-o como um dos santos da Igreja. Eu ia fazer meus 14 anos de idade e me lembro bem: D. José decretou feriado no Seminário São José de Sobral, não só para aquele dia 21 de agosto, mas para todos os anos no dia da celebração litúrgica de São Pio X.

Poucos anos depois, em Junho de 1959, D. José teve uma crise de “edema pulmonar” e eu estava com ele em sua residência episcopal. Era cedo da noite quando ele se sentiu mal. Pediu-me para, apressadamente, chamar seu médico e amigo – o Dr. Guarany Mont’Alverne – que habitava em frente à sua casa. Imediatamente eu o chamei e ao chegar, tomou as providências necessárias para debelar a crise e D. José voltou ao normal. Quando todos saíram – médico, padres, seminaristas e alguns amigos e familiares – D. José me segredou: “eu tinha certeza de que não ia morrer. Quando você saiu para chamar o médico, apareceu-me, ali naquela parede, sorrindo, irradiante de felicidade, o meu querido São Pio Décimo. Eu tive certeza de que não morreria dessa vez”. De fato, permaneceu vivo até 25 de Setembro do mesmo ano.

            Além de recordá-lo a cada ano, ainda guardamos inúmeras lições de vida, mesmo após 139 anos de seu nascimento e 62 anos de sua morte. D. José continuará inesquecível.

            Depois do 17º Setembro Dom José em 2016 – um mês após a morte do Prof. Teodoro – ainda teimamos em promover o 18º Evento em Setembro de 2017, reunindo familiares, amigos, diretores dos Institutos criados por ele, o Museu Dom José, a Escola de Artes Universo da Música e a sociedade Sobralense em Geral para prestarmos uma dupla homenagem aos “02 JOSÉs: o tradicional homenageado, Dom José Tupinambá e o criador e incentivador do Setembro Dom José, o Professor José Teodoro.

            O Teatro São João ficou repleto de gente, aplaudindo, incentivando os artistas, motivando até um pronunciamento público na hora do agradecimento: ‘não podemos trair essa memória; para o ano queremos estar aqui e colaborar’.

            O fato é que, já se vão 04 anos sem que sejam lembrados os Setembros Dom José. Não me vejo mais com coragem de arregimentar os novos integrantes da UVA, do Governo Municipal, da Diocese, da Sociedade Civil, do Museu D. José, do Teatro S. João – coetâneo do ilustre Bispo, filho da terra – e da Escola de Artes: Universo da Música que, dos anos 2007 a 2017, fora parceira do Setembro D. José, promovendo o Festival “Amigos e a Música”, sempre com muito sucesso, abordando um ritmo musical.

Dom José com os Padres e Seminaristas da Betânia, em Sobral – Ce.

No alto dos meus 81 anos, não me vejo mais com garra, tempo, ousadia e disponibilidade para integrar tal equipe, embora reconheça como necessária para manter uma tradição em honra de alguém que tanto fez por Sobral. Não é para humilhar ninguém, mas Sobral nunca teve um administrador tão corajoso e tão desapegado, até dos seus próprios recursos, para investir nesta cidade com a sua mensagem de fé, sua obra material sempre na esperança de fazer de Sobral, uma “Nova Roma”. Não era sonhar demais? E ele conseguiu.

            Dom José – sem ter estudado a Teologia da Libertação, sem falar de CEBs ou de “Comunidade de Comunidades”, sem adesão alguma às ideias liberais ou ao positivismo de sua época, sem propagar a nascente Doutrina Social da Igreja, nem mesmo sem ser um visionário socialista – enveredou pela junção de fé e obra, de esperança e política, de oração e ação como o fizeram e ainda fazem tantos outros homens de Igreja. Colocou até seu patrimônio pessoal a serviço da Paróquia da Conceição, como seu 12º Pároco e, mais tarde, a serviço da Diocese, como seu 1º Bispo a partir de 1915, com aquela pertinaz ideia de fazer de Sobral uma miniatura de Roma. Não mediu esforços.

            Criou muitas Associações Religiosas, Irmandades, Catequese, Ordens Terceiras, para vivenciarem as Festas de Padroeiros, as procissões e demais práticas religiosas. Imprimiu no povo as tradições essenciais da vida cristã, dando ênfase à Santa Missa, aos Sacramentos, à Ação Missionária de tal modo que plantou muitas raízes e boas tradições no coração da família sobralense, que perduram até hoje.

            Fundou o Asilo da Mendicidade, alicerce para a futura Santa Casa de Misericórdia, o Seminário São José para a formação de sacerdotes, hoje sede da UVA (Universidade Vale do Acaraú), o Abrigo Sagrado Coração de Jesus, o Colégio Diocesano Sobralense, o Colégio Santana, o Patronato Imaculada Conceição, o Jornal Correio da Semana e, mais tarde, a consequente Rádio Educadora, o Comitê Municipal contra o analfabetismo, o Palácio Episcopal, onde habitava e já funcionava o seu Museu Diocesano, hoje Museu Dom José, o Cine Teatro Gloria, a Casa de férias para si e para seus seminaristas na Serra da Meruoca, mais tarde Centro de Treinamento Diocesano. Para a Administração de Recursos e de doações para construir tantas obras e até movimentar rendas pessoais e da diocese, ousou erigir o Banco de Crédito Popular, transformado mais tarde no BANCESA, que movimentou por um bom tempo a economia local. Dom José foi, de fato, um dos maiores mentores, incentivadores, construtores e administradores do desenvolvimento de Sobral. Ninguém nega.

            Também, pudera! Um homem culto; falava, fluentemente, várias línguas. Conhecia música erudita e tinha um ouvido afinadíssimo. Ao ouvir uma voz destoante no Coral do Seminário, em pleno Pontifical na Igreja da Sé, corrigia publicamente e mandava cantar de novo, desfazendo o erro.

            Como não homenagear este homem, como deixá-lo no esquecimento ou não lhe ter tanto respeito pelo “monstro sagrado” que ele foi? No início deste ano, fui procurado pelo Padre João Paulo, Pároco da Catedral e Chanceler da Cúria Diocesana de Sobral, demonstrando interesse em conhecer a história da caminhada do Setembro Dom José para retomá-la, quem sabe, nos próximos anos. Dei-lhe estas informações acima descritas. Ele é jovem e capaz de dar um novo destino a tudo. Vá em frente, meu irmão! Se eu ainda estiver vivo e puder colaborar com alguma lembrança dos fatos, conte comigo.

Mons. ASSIS ROCHA Mestre e Doutor em Comunicação Social

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