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Literatura Cearense: O Seminário de Sobral em minha vida! Benes Alencar Sales

Autor do Texto
Benes Alencar Sales
Cheguei ao vistoso casarão da Betânia nos primeiros dias do longínquo mês de fevereiro de 1953. Saí de trem de minha cidade natal, Crateús, às cinco horas de uma saudosa manhã e fui recebido em Sobral por padre Marconi, parente da família, que me acolheu com carinho na casa de sua mãe. Levou-me, a seguir, a um estabelecimento comercial para adquirir um chapéu eclesiástico, um dos últimos itens da indumentária oficial da nova vida que me propusera.  

No mesmo dia, conduziu-me ao Seminário, onde compunha o corpo de professores.

Embora tivesse apenas treze anos, a vida de internato não me era estranha. No ano anterior, eu estudara em Fortaleza, no Colégio Cearense Sagrado Coração, dos irmãos maristas, onde, como interno, na divisão dos menores, cursei o primeiro ano ginasial. Foi lá que me surgiu um pensamento que foi tomando vulto nos últimos meses de 1952: o de ingressar na vida religiosa. No final daquele ano, ao entrar de férias, retornei à casa de meus pais, imbuído da ideia de seguir para o juvenato marista de Apipucos em Recife.

Meu pai, percebendo firmeza em minha decisão e ao mesmo tempo considerando a minha idade, tentou mostrar-me que Recife era muito distante. Fortalecido por sua esposa, minha segunda mãe e irmã de padre Marconi, propôs que eu fosse para o Seminário de Sobral. Acatei sem delongas a sugestão, e o enxoval começou a ser preparado, inclusive a batina de casimira preta confeccionada em Crateús pelo senhor “Manelinho” Bonfim, cujo feitio, só mais tarde pude constatar, aproximava-se das batinas fabricadas pela alfaiataria de alta costura do senhor Lira, em Recife, alfaiate “oficial” de quase todo o clero do Nordeste, inclusive do clero sobralense.

Os seis anos vividos no Seminário da Betânia decorreram de forma tranquila e prazerosa. Fiz grandes amizades que ainda hoje deixam suas marcas. Entre os sacerdotes que ali residiam, quero destacar os padres Austregésilo (reitor), Arnóbio (diretor espiritual) e Edmilson Cruz (professor de latim e de inglês)pela espiritualidade que irradiavam. Padre Marconi, que havia estudado filosofia e teologia em São Leopoldo – Rio Grande do Sul, despertou-nos o gosto pela música erudita, criando no Seminário um espaço físico bem equipado com som e coleções de discos, onde podíamos ouvir e comentar as músicas dos mais diversos clássicos.

Lembro-me ainda que acordávamos nos feriados ao som dos “dobrados” e das lindas músicas trazidas por ele do Sul do País. Padre Sadoc, vindo de seus estudos na Universidade Gregoriana (Roma), aperfeiçoou a Schola Cantorum (da qual eu era tenor), que executava músicas sacras de elevada qualidade, nas missas solenes celebradas no Seminário, na capela do Preciosíssimo Sangue. Também cantávamos nas cerimônias da Catedral de Sobral em que o Senhor Bispo se fazia presente e, algumas vezes, em Primeiras Missas celebradas por neossacerdotes de cidades próximas da sede da Diocese. Em dias festivos, a Schola transformava-se em Coral e apresentava nas solenidades músicas profanas de grandes compositores, cantadas em várias vozes, com que tanto me deleitava.

Menciono ainda os padres José Linhares e Albani, sobretudo pela mentalidade aberta e pelo modo como tratavam e formavam os adolescentes daquela casa religiosa. José Linhares, trazendo-nos as ideias do inglês Baden Powell, fundador do escotismo, ajudava-nos na formação do caráter e a enfrentar em grupo as dificuldades com lealdade. Tudo isto dentro do espírito alegre e corajoso dos escoteiros que buscávamos na literatura desse movimento que ele nos fazia chegar às mãos. Formávamos equipes e vivenciávamos na Betânia, na medida do possível, a prática do escotismo, seguindo a mística de Baden Powell. No entanto, era no grande prédio de veraneio situado na Serra da Meruoca, extensão do Seminário de Sobral, que nosso movimento escotista ganhava força. Ali, anualmente, sempre em setembro, passávamos alguns dias de férias por ocasião da “Semana da Pátria”. O ambiente ecológico da Meruoca apresentava-se-nos como ímpar para pormos em prática o escotismo e levava-nos a executar o que líamos nos manuais. Abríamos trilhas, marcávamos e seguíamos “sinais” deixados ao longo dos caminhos pelas diversas equipes de “escoteiros”, escalávamos morros dos arredores e exercitávamos outras atividades lúdicas que me escapam à lembrança.

Foi também por intermédio de José Linhares que, nos meus últimos anos do seminário menor, passei a conhecer a JEC (Juventude Estudantil Católica), ramo do Movimento de Ação Católica iniciado com a JOC (Juventude Operária Católica), fundada na Bélgica pelo cardeal Cardijn. A JEC é a presença da Igreja no meio dos estudantes secundaristas. Um pequeno número de colegas do Seminário, do qual eu fazia parte, como estudantes secundaristas que éramos, formamos uma equipe de JEC, tendo José Linhares como Padre Assistente, da mesma maneira que todos os ramos da Ação Católica têm um padre como assistente. Não só líamos sobre esse Movimento, mas sobre a Ação Católica em geral. Da mesma maneira como ocorria com o escotismo, tentávamos experienciar a JEC dentro do Seminário, fazendo reuniões periódicas em que revisávamos nossa ação à luz do método ver, julgar e Agir, aplicado pela Ação Católica. Empolguei-me com o Movimento. Naquela época, era com ele que pensava me dedicar à pastoral de jovens, futuramente como sacerdote. Lembro-me que, em determinado mês de férias, participei juntamente com meu colega de ano, José Vitorino, de um encontro de JEC na cidade do Ipu, a convite de padre Almeida.

Posso afirmar que os seis anos passados no Seminário de Sobral (1953-1958) foram vividos intensamente e me proporcionaram uma riqueza inestimável pela convivência amiga com os colegas e mestres e pela aprendizagem que marcou toda a minha vida futura, sobretudo no campo espiritual e intelectual. No plano intelectual, destaco o hábito de estudo que um regime de internato favorece e o meu amor à música. No plano espiritual, a influência maior prende-se à figura de Albani.

Albani, após ter chegado de Roma, residiu em Sobral até o fim de seus dias. Todavia, sua presença na minha vida mostrou-se não apenas no Seminário da Betânia. Acompanhou-me nos cursos de filosofia e teologia nos Seminário da Prainha e de Olinda em Pernambuco, refletiu-se na época em que fui padre, na Diocese de Crateús (1966-1969) e até mesmo quando me transferi para Recife, após ter deixado o exercício do sacerdócio. O interessante é que, nos últimos trinta anos que antecederam sua morte, nossos encontros, quer pela presença física quer por outras formas de comunicação, foram esparsos. Conversei com Albani já hospitalizado. Sua alegria era a de sempre. Parecia-me que se preparava para uma simples viagem. Ele foi a maior presença do Seminário de Sobral na minha vida. Marcou-me profundamente por sua alegria, simplicidade, autenticidade, sinceridade, espontaneidade, amizade a toda prova, por suas loucuras e, contraditoriamente, por sua santidade à laPetits Frères de Jésus”,deCharlesde Foucauld, que ele tanto os admirava, ainda que, por motivos que ignoro, não houvesse ingressado oficialmente nessa congregação religiosa.

Resido em Recife desde 1970. Casei-me e tenho três filhos. Revalidei o Curso de Filosofia na Universidade Católica, onde lecionei durante 36 anos. Fiz o Curso de Economia e posteriormente o mestrado em Filosofia, ambos na UFPE. Em 2010, concluí o doutorado, também em Filosofia, e publiquei em 2013 pelas Edições Loyola o livro Descartes: das paixões à moral. Sou também auditor fiscal aposentado da Secretaria da Fazenda de Pernambuco.

Colegas de Seminário
Da esquerda para a direita: Assis Rocha, Vitorino, Edvar, Pedro Alcântara, Benes e Vieira. Abaixo: Defrísio, Padre Zé Linhares e Manoel Alcides.

Vejo por demais oportuna a feliz ideia proposta por Leunam e Aguiar Moura de publicarmos um livro sobre a importância do Seminário da Betânia em nossa vida. Em um primeiro momento, indaguei-me se não seria exigir muito de minha memória, recordações de fatos que já ultrapassam sessenta anos. Entretanto, à medida que as lembranças começaram a fluir, a tarefa que parecia representar um embaraço, converteu-se em um exercício que me trouxe muito prazer.

Passando em revista tantas recordações, agradeço a todos os que comigo conviveram na Betânia a alegria que me deram com suas presenças. Por último, tenho a convicção de que o tempo vivido no Seminário de Sobral foi estruturante para eu ser o que sou.   

(*) Benes Alencar Sales, cearense de Crateús, é Padre casado,  Professor de Filosofia, escritor, residente no Recife.

Literatura Cearense: Resgatando a minha história no Seminário da Betânia

Raimundo Aguiar Silva – Na Betânia de 1964/1967

Antes de qualquer coisa gostaria de destacar a emoção que sinto nesse momento em estar aqui, juntamente com os demais companheiros do Seminário São José de Sobral, para relatarmos nossas experiências vivenciadas durante aqueles inesquecíveis anos de estudo. Foi, sem dúvida nenhuma, um período, que marcou intensamente nossa vida.  Os laços de amizade lá firmados representam hoje o estímulo de estarmos mais uma vez juntos, trazendo à tona lembranças e a certeza de que valeu a pena.

Sou Raimundo Aguiar Silva, na época conhecido como Raimundinho do Padre Tupi, filho do casal Pedro Pereira da Silva e Carmosa Aguiar Silva, segundo na escala dos seus sete filhos. Nasci em Sobral em 8 de novembro de 1951, oriundo de uma família pertencente a uma classe social considerada pobre, mas com uma formação religiosa bastante sólida, principalmente manifestada pela minha mãe Carmosa Aguiar Silva e minha avó adotiva Maria Benvinda Cialdini Rangel, pessoas que influenciaram bastante na minha decisão em entrar para o Seminário. A minha pouca maturidade não me permitiu então perceber ao certo o que necessariamente representava para mim aquela decisão, a não ser vislumbrar uma vida mais fácil, com menos dificuldades financeiras.

Ingressei no Seminário em 1964, época bastante delicada em nosso País, pois vivíamos naquela ocasião o golpe civil-militar de 31 de março, que deu início a um momento conhecido como a Ditadura Militar.  Foi uma situação marcante na nossa história, quando as nossas liberdades foram reprimidas; as nossas vontades, ideais e aspirações, relegados ao silêncio imposto pela repressão. E o Seminário se tornou um reduto da resistência. Éramos mais de cem jovens inebriados pelos princípios revolucionários do Concílio Vaticano II, e o mundo todo ansiava por liberdade e por justiça.

O Seminário nos propunha uma rígida formação religiosa, pautada em preceitos dogmáticos, que não podíamos questionar. Eram-nos passados como verdades absolutas inspiradas na fé. Preceitos e disciplina com que foi construída uma base sólida para toda a nossa formação humana e profissional.  O respeito aos outros, a solidariedade, os bons costumes, o companheirismo, a religiosidade foram inquestionavelmente os alicerces da minha formação, proporcionados pelo inesquecível   Seminário da Betânia.

Durante quatro anos permaneci no Seminário, que fechou suas portas, por problemas financeiros, no final de 1967, momento de muita tristeza para todos nós. Lá aprendi muito e com uma profundidade tal que os conhecimentos adquiridos naquele casarão vêm superando todas as experiências obtidas em outros espaços e determinando êxito nas minhas atividades pelos caminhos da vida.

Em 1968, não mais seminarista, fui estudar em Fortaleza. Na ocasião, a Escola Técnica Federal do Ceará se destacava na educação brasileira. Pleiteei e consegui ali uma vaga, não obstante o número significativo de concorrentes. Conclui, em 1972, o curso de Estradas, especializando-me em Equipamentos Pesados.

. Em 1976 ingressei no curso de Matemática, posteriormente transferido para Engenharia Elétrica, na Universidade de Fortaleza – UNIFOR, curso que, por questões pessoais, não me foi possível concluir.

Hoje, vivo realizado ao lado de minha esposa e quatro filhos, aos quais procuro transmitir o legado da formação que recebi do Seminário como determinante para uma existência digna: simplicidade de vida, respeito aos outros, fé em Deus e nas nossas potencialidades.

Valeu muito ter estudado no Seminário. De tudo tirei proveito: das aulas, das reflexões conduzidas pelos padres, das orações da manhã, dos terços rezados às cinco horas da tarde, das missas diárias matinais, das conversas nos corredores e no refeitório, dos esportes, dos amigos que lá conquistamos. Tenho certeza de que faria tudo da mesma forma. Aqui lembro o poema de Don Herold (1953), “Eu colheria mais margaridas”:

“Se eu pudesse viver minha vida de novo, eu trataria de cometer mais erros na próxima vez (…) correria mais riscos (…) tomaria mais sorvetes. ”

Na realidade eu cometeria menos erros, aproveitaria mais as aulas de Música, Latim, Francês e Português. Seria mais acessível aos momentos de reflexão proporcionados pelos nossos mestres e, com certeza, comeria mais finas tapiocas, chamadas de “lenço de parteira”, servidas no lanche das 9 horas da noite.

 Velhos tempos, belos dias (Roberto Carlos).

Se eu tivesse a mesma chance eu faria tudo exatamente da mesma maneira.

Texto extraído do livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – AD VITAM – 65 DECLARAÇÕES DE AMOR,                                  de Leunam Gomes e Aguiar Moura, Edições UVA, 2015